sexta-feira, 10 de abril de 2020

PRIMEIRA EDIÇÃO DE SEXTA-FEIRA, 10/4/2020

—O INJUSTO E ABSURDO JULGAMENTO DE JESUS—
No aniversário de Rui Barbosa, leia texto memorável do jurista.
A 5 de novembro de 1849, à Rua dos Capitães, na Freguesia da Sé, nasceu Rui Barbosa, na cidade do Salvador,BA. 
Advogado, jornalista, jurista, político, diplomata, ensaísta e orador, essa figura extraordinária marcou a História do Brasil com o seu brilhantismo.
Alejandro Carriles nos lembra que é aniversário de Rui e sugere, para comemorar a data, a publicação do texto abaixo que, como quase tudo que o mestre produziu, continua tão atual hoje quanto nos dias em que foi escrito.
Trata-se de uma das melhores e menos conhecidas páginas de Rui Barbosa, onde ele examina, à luz do Direito Hebraico e do Direito Romano, o processo de Jesus.

O JUSTO E A JUSTIÇA POLÍTICA
Por Rui Barbosa
Para os que vivemos a pregar à República o culto da Justiça como o supremo elemento preservativo do regímen, a história da Paixão, que hoje se consuma, é como que a interferência do testemunho de Deus no nosso curso de educação constitucional. O quadro da ruína moral daquele mundo parece condensar-se no espetáculo da sua Justiça, degenerada, invadida pela política, joguete da multidão, escrava de César. Por seis julgamentos passou Cristo, três às mãos do dos judeus, três às dos romanos, e em nenhum teve um juiz.
Aos olhos dos seus julgadores, refulgiu sucessivamente a inocência divina, e nenhum ousou estender-lhe a proteção da toga. Não há tribunais, que bastem, para abrigar o Direito, quando o dever se ausenta da consciência dos magistrados.
Grande era, entretanto, nas tradições hebraicas, a noção da divindade do papel da magistratura. Ensinavam elas que uma sentença contrária à verdade afastava do seio de Israel a presença do Senhor, mas que, sentenciando com inteireza, quando fosse apenas por uma hora, obrava o juiz como se criasse o Universo, porquanto era na função de julgar que tinha a sua habitação entre os israelitas a Majestade Divina.
Tampouco valem, porém, leis e livros sagrados, quando o homem lhes perde o sentimento, que exatamente no processo do Justo por excelência, Daquele em cuja memória todas as gerações até hoje adoram por excelência o Justo, não houve no código de Israel norma que escapasse à prevaricação dos seus magistrados.
No julgamento instituído contra Jesus, desde a prisão, uma hora talvez antes da meia-noite de Quinta-feira, tudo quanto se fez até ao primeiro alvorecer da Sexta-feira subseqüente, foi tumultuário, extrajudicial, a atentatório dos preceitos hebraicos. A terceira fase, a inquirição perante o Sinedrim, foi o primeiro simulacro de formação judicial, o primeiro ato judicatório, que apresentou alguma aparência de legalidade, porque ao menos se praticou de dia.
Desde então, por um exemplo que desafia a eternidade, recebeu a maior das consagrações o dogma jurídico, tão facilmente violado pelos despotismos, que faz da santidade das formas a garantia essencial da santidade do Direito.
O próprio Cristo delas não quis prescindir. Sem autoridade judicial O interroga Anás, transgredindo as regras assim na competência, como na maneira de inquirir; e a resignação de Jesus ao martírio não se resigna a justificar-se fora da lei: 
—"Tenho falado publicamente ao mundo. Sempre ensinei na sinagoga e no templo, a que afluem todos os judeus, e nunca disse nada às ocultas. Por que me interrogas? Inquire dos que ouviam o que lhes falei: esses sabem o que eu lhes houver dito"
Era apelo às instituições hebraicas, que não admitiam tribunais singulares, nem testemunhas singulares. O acusado tinha jus ao julgamento coletivo, e sem pluralidade nos depoimentos criminadores não poderia haver condenação. O apostolado de Jesus era ao povo.
Se a sua prédica incorria em crime, deviam pulular os testemunhos diretos. Esse era o terreno jurídico. Mas, porque o filho de Deus chamou a Ele os seus juízes, logo o esbofetearam. Era insolência responder assim ao pontífice. 
—"Sic respondes pontifici?" Sim, revidou Cristo, firmando-se no ponto de vista legal: 
"Se mal falei, traze o testemunho do mal; se bem, por que me bates?"
Anás, desorientado, remete o peso a Caifás. Este era o sumo sacerdote do ano. Mas, ainda assim, não não tinha a jurisdição, que era privativa do conselho supremo. Perante este já muito antes descobrira o genro de Anás a sua perversidade política, aconselhando a morte a Jesus, para salvar a nação. Cabe-lhe agora levar a efeito a sua própria malignidade, "cujo resultado foi a perdição do povo, que ele figurava salvar, e a salvação do mundo, em que jamais pensou".
A ilegalidade do julgamento noturno, que o Direito judaico não admitia nem nos litígios civis, agrava-se então com o escândalo das testemunhas falsas, aliciadas pelo próprio juiz, que, na jurisprudência daquele povo, era especialmente instituído como o primeiro protetor do réu. Mas, por mais falsos testemunhos que promovessem, Lhe não acharam a culpa, que buscavam. Jesus calava. Jesus autem tacebat.
Vão perder os juizes prevaricadores a segunda partida, quando a astúcia do sumo sacerdote lhes sugere o meio de abrir os lábios divinos do acusado. Adjura-o Caifás em nome de Deus vivo, a cuja invocação o filho não podia resistir. E diante da verdade provocada, intimada, obrigada a se confessar, Aquele, que a não renegara, vê-se declarar culpado de crime capital: Reus est mortis. "Blasfemou! Que necessidade temos de testemunhas? Ouvistes a blasfêmia". Ao que clamaram os circunstantes: "é réu de morte".
Repontava a manhã quando à sua primeira claridade se congrega o Sinedrim. Era o plenário que se ia celebrar. Reunira-se o conselho inteiro. In universo concilio, diz Marcos. Deste modo se dava a primeira satisfação às garantias judiciais. Com o raiar do dia se observava a condição da publicidade. Com a deliberação da assembléia judicial, o requisito da competência. Era essa a ocasião jurídica. Esses eram os juizes legais. Mas juízes, que tinham comprado testemunhas contra o réu, não podiam representar senão uma infame hipocrisia da Justiça. Estavam mancomunados para condenar, deixando ao mundo o exemplo, tantas vezes depois imitado até hoje, desses tribunais que se conchavam de véspera nas trevas, para simular mais tarde, na assentada pública, a figura oficial do julgamento.
Saía Cristo, pois, naturalmente condenado pela terceira vez. Mas o Sinedrim não tinha o jus sanguinis. Não podia pronunciar a pena de morte. Era uma espécie de júri, cujo veredictum, porém, antes opinião jurídica do que julgado, não obrigava os juizes romanos. Pilatos estava, portanto, de mãos livres, para condenar, ou absolver. 
"Que acusação trazeis contra este homem?" — assim fala por sua boca a justiça do povo, cuja sabedoria jurídica ainda hoje rege a terra civilizada. 
"Se não fosse um malfeitor, não to teríamos trazido", foi a insolente resposta dos algozes togados. Pilatos, não querendo ser executor num processo de que não conhecera, pretende evitar a dificuldade, entregando-lhes a vítima: 
"Tomai-o, e julgai-o segundo a vossa lei"
Mas, replicam os judeus: 
"Bem sabes que nos não é lícito dar a morte a ninguém". O fim é a morte, e sem a morte não se contenta a depravada justiça dos perseguidores.
Aqui já o libelo se trocou. Não é mais de blasfêmia contra a lei sagrada que se trata, senão de atentado contra a lei política. Jesus já não é o impostor que se inculca filho de Deus: é o conspirador, que se coroa rei da Judéia. A resposta de Cristo frustra ainda uma vez, porém, a manha dos caluniadores. Seu reino não era deste mundo. Não ameaçava, pois, a segurança das instituições nacionais, nem a estabilidade da conquista romana. 
"Ao mundo vim",  diz ele,  para dar testemunho da verdade. Todo aquele que for da verdade, há de escutar a minha voz"
A verdade? Mas "que é a verdade"? pergunta definindo-se o cinismo de Pilatos. Não cria na verdade; mas a da inocência de Cristo penetrava irresistivelmente até o fundo sinistro dessas almas onde reina o poder absoluto das trevas. 
"Não acho delito a este homem" disse o procurador romano, saindo outra vez ao meio dos judeus.
Devia estar salvo o inocente. Não estava. A opinião pública faz questão da sua vítima. Jesus tinha agitado o povo, não ali só, no território de Pilatos, mas desde a Galiléia. 
Ora, acontecia achar-se presente em Jerusalém o tetrarca da Galiléia, Herodes Antipas, com quem estava de relações cortadas o governador da Judéia. Excelente ocasião para Pilatos de lhe reaver a amizade, pondo-se, ao mesmo tempo, de boa avença com a multidão inflamada pelos príncipes dos sacerdotes. Galiléia era o forum originis do Nazareno. Pilatos envia o réu a Herodes, lisonjeando-lhe com essa homenagem a vaidade.
Desde aquele dia um e outro se fizeram amigos, de inimigos que eram. Et facti sunt amici Herodes et Pilatus in ipsa die; nam antea inimici erant ad invicem. Assim se reconciliam os tiranos sobre os despojos da Justiça.
Mas Herodes também não encontra por onde condenar a Jesus e o Mártir volta sem sentença de Herodes a Pilatos que reitera ao povo o testemunho da intemerata pureza do Justo. Era a terceira vez que a magistratura romana a proclamava. Nullam causam inveni in homine isto ex his, in quibus eum accusatis. O clamor da turba recrudesce.
Mas Pilatos não se desdiz. Da sua boca irrompe a Quarta defesa de Jesus: 
"Que ma fez esse ele? Quid enim mali fecit iste?" 
Cresce o conflito, acastelam-se as ondas populares. Então o procônsul lhes pergunta ainda: 
"Crucificareis o vosso rei?" A resposta da multidão em grita foi o raio que desarmou as evasivas de Pilatos. 
"Não conhecemos outro rei, senão César". 
A esta palavra o espectro de Tibério se ergueu no fundo da alma do governador da província romana. O monstro de Cáprea, traído, consumido pela febre, crivado de úlceras, gafado da lepra, entretinha em atrocidades os seus últimos dias. Traí-lo era perder-se. Incorrer perante ele na simples suspeita de infidelidade era morrer. O escravo de César, apavorado, cedeu, lavando as mãos em presença do povo:
 "Sou inocente do sangue deste justo".
E entregou-o aos crucificadores. Eis como procede a Justiça que se não compromete. A História premiou dignamente esse modelo da suprema cobardia na Justiça. Foi justamente sobre a cabeça do pusilânime que recaiu antes de tudo em perpétua infâmia o sangue do Justo.
De Anás a Herodes o julgamento de Cristo é o espelho de todas as deserções da Justiça, corrompida pela facções, pelos demagogos e pelos governos. A sua fraqueza, a sua inocência, a sua perversão moral crucificaram o Salvador, e continuam a crucificá-Lo, ainda hoje, nos impérios e nas repúblicas, de cada vez que um tribunal sofisma, tergiversa, recua, abdica. Foi como agitador do povo e subversor das instituições que se imolou Jesus.
E, de cada vez que há precisão de sacrificar um amigo do Direito, um advogado da verdade, um protetor dos indefesos, um apóstolo de idéias generosas, um confessor da lei, um educador do povo, é esse, a ordem pública, o pretexto, que renasce, para exculpar as transações dos juizes tíbios com os interesses do poder. Todos esses acreditam, como Pôncio, salvar-se, lavando as mãos do sangue que vão derramar, do atentado que vão cometer. Medo, venalidade, paixão partidária, respeito pessoal, subserviência, espírito conservador, interpretação restritiva, razão de estado, interesse supremo, como quer te chames, prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz cobarde.
(A Imprensa, Rio, 31 de março de 1899, em Obras Seletas de Rui Barbosa, vol. VIII, Casa de Rui Barbosa, Rio, 1957, págs. 67-71.)
Da Revista Consultor Jurídico, 5 de novembro de 2002, 21h13.

domingo, 5 de abril de 2020

PRIMEIRA EDIÇÃO DE DOMINGO, 05/4/2020

DOMINGO DE RAMOS
Jesus e seus discípulos seguiram para Jerusalém. No caminho, Jesus pede para que seus discípulos Lhe arranjassem um animal de carga. E assim o fizeram. Jesus montou nele e prosseguiu a viagem. A estrada estava cheia de pessoas que também iam para Jerusalém para comemorar a páscoa judaica. Eles abriram alas para Jesus passar. Acenaram com ramos de árvores e forraram o chão com suas roupas. E ao segui-Lo iam gritando parte de um salmo, 118: 25-26:
— Hosana! Bendito o rei que vem em nome do Senhor!
O simbolismo do jumento pode ser uma referência à tradição oriental de que este é um animal da paz, ao contrário do cavalo, que seria um animal de guerra. Segundo esta tradição, um rei chegava montado num cavalo quando queria a guerra e num jumento quando procurava a paz. Portanto, a entrada de Jesus em Jerusalém simbolizaria sua entrada como um "príncipe da paz" e não um rei guerreiro.
Em muitos lugares no Oriente Próximo Antigo era costumeiro cobrir de alguma forma o caminho à frente de alguém que merecesse grandes honras. A Bíblia hebraica (II Reis 9:13) relatam que Jeú, filho de Josafá, recebeu este tratamento. Este era símbolo de triunfo e vitória na tradição judaica e aparecem em outros lugares da Bíblia (Levítico 23:40 e Apocalipse 7:9, por ex.). Por causa disto, a cena do povo recebendo Jesus com as palmas e cobrindo seu caminho com elas e com suas vestes se torna simbólica e importante.
O último domingo de Jesus na Terra ficou conhecida como "domingo de ramos."
OBSERVAÇÃO DE RUDYMARA: O último domingo de Jesus na Terra ficou conhecida como "domingo de ramos." Neste dia Ele entrou exaltado e saudado com repeito e alegria. Mas, quatro dias depois, os mesmos que O saudaram O condenaram à morte.
Ainda hoje fazemos isso a Ele. Nós O saudamos, dizemos que O amamos, compartilhamos Seus ensinamentos pelas redes sociais, mas em seguida, muitos de nós, O traímos quando nossas atitudes e palavras contrariam Seus pedidos. Com isso, condenamos à morte Seus ensinamentos. Mas Ele acredita em nós, porque nos compreende, sabe que ainda damos mais valor ás coisas materiais do que as espirituais, e assim, continua aguardando há mais de dois mil anos que O sigamos. Pensemos nisso!
Publicado na página http://grupoallankardec.blogspot.com/2012/04/domingo-de-ramos.html em 1º/4/2012.

A dor que é morta
Por Ricardo Orestes Forni
Que você já leu o ensinamento de que a fé sem obras é morta, não há dúvida, mas a afirmativa do título acima – a dor que é morta - tenho minhas dúvidas de que já tenha lido.
Por exemplo, quando em um sinaleiro da cidade nós vemos crianças esmolando para sustentar vícios dos pais, sentimos profundamente. Pelo menos creio que sim. Entretanto, quando o sinal nos autoriza prosseguirmos com o carro, aquela visão e o consequente sentimento de tristeza se esvaem.
Quando assistimos em qualquer canal de televisão à notícia de um pai que molestou sexualmente a própria filha por anos seguidos dentro da própria casa, um sentimento de revolta contra o agressor e de piedade para com a vítima são inevitáveis. Mas, quando o canal de televisão que anunciava a tragédia é desligado, tanto a revolta como a piedade desaparecem.
Essa epidemia, talvez até mesmo uma pandemia, do coronavírus, ceifando vidas aqui e acolá, gera um sentimento de fraternidade mundial, que serve para desviar o foco de atritos entre superpotências que põem em risco a paz do Planeta, mas faz nascer no coração do homem uma tristeza por existências que são ceifadas pela doença. Porém, assim que a moléstia for controlada, passará a existir tempo e espaço para que os atritos bélicos se reagudizem em vários pontos ocupados pelo ser humano, passando a impressão de que a Humanidade não tem mais um inimigo comum.
Ou seja, nosso amor pelo semelhante ainda é tão frágil que parece escapar assim que uma situação de sofrimento se perde no passado, mesmo que num passado muito precoce.
Irmão José no livro Com Cinco Pães E Dois Peixes, psicografia de Baccelli, Editora DIDIER, tem uma página que vem se encaixar e muito bem nessa realidade.
Diz ela: 
"Muitos se comovem diante da dor, mas nada fazem para amenizá-la.
Muitos lamentam a situação de penúria em que vive determinada pessoa, mas nada fazem para auxiliá-la.
Muitos se indignam com a injustiça que presenciam, mas nada fazem para combatê-la.
Muitos se entristecem com a infância desvalida nas ruas, mas nada fazem para socorrê-la.
Muitos clamam contra a crescente onda de violência, mas nada fazem para erradicá-la.
O mundo em ruínas não está precisando de quem chore sobre os seus escombros, mas, sim, de quem transpire na sua reconstrução."
Chico Xavier se comovia com a dor das pessoas que o procuravam, chorava com o desespero das mães que achavam que tinham perdido seus filhos, mas se doava totalmente nas longas horas de trabalho mediúnico trazendo notícias consoladoras aos corações mergulhados em dores atrozes.
O mesmo podemos dizer de Irmã Dulce, que não ficou a observar os necessitados esquecidos pelas ruas, mas, esmolando em todos os lugares por ela percorridos, conseguiu levar o socorro a tantos deles.
Madre Teresa de Calcutá está inserida nesse mesmo procedimento de amor aos seus semelhantes. Quantas peregrinações e lutas pelo Planeta!
Que se inclua exemplarmente Divaldo Franco com a sua gigantesca obra da Mansão do Caminho, sem mencionarmos sua tarefa mediúnica de grandeza ímpar e também as suas sacrificiais viagens a muitos países levando a mensagem consoladora do Espiritismo.
Muitos outros vultos teriam para ser citados, mas deixamos a cargo da lembrança de cada leitor essa menção.
O que podemos concluir do nosso comportamento de passar pela dor sem nada fazer, mesmo que seja muito pouco o que possamos doar para amenizá-la, é que toda dor que venhamos a sentir e que nada produz para suavizar o sofrimento daqueles que nos cruzam o caminho, a exemplo da fé sem obras, essa dor transitória, passageira, fugaz, essa dor que não nos mobiliza em direção ao sofredor, também é morta em si mesmo.
Publicado na página http://www.oconsolador.com.br/Ano 14 - N° 664 - 5 de Abril de 2020.

Epítome descritivo sobre o cenário e a vida além da sepultura
Por Jorge Hessen
jorgehessen@gmail.com
Brasília-DF
Quinta-feira, 26 de março de 2020
Conquanto haja kardequeólogos de plantão que andam rejeitando os livros do Espírito André Luiz, particularmente sigo por outros caminhos, acolhendo as revelações do autor de “Nosso Lar”, e de outros Benfeitores, com serena confiança. Em face disso, discorreremos se, na dimensão dos espíritos, realmente existem casas, templos, escolas, hospitais, ruas, árvores, parques.
Com certeza por “lá” não há vasos sanitários e mictórios. Lamentavelmente existem romances mediúnicos que não passam de abusos ficcionais criados por “médiuns” obsedados. Há um dilúvio desses romances alucinantes narrando que no Além os espíritos se casam, copulam e geram filhos, sim! Reproduzem!!! Afiançam que, pela fecundação, há a gestação, o nascimento dos “bebês” (pasmem!) Contam até que por lá o espírito morre, (morre!? meu Deus!!!) sobrevindo o sepultamento dos seus restos perispirituais em cemitérios d’além-túmulo. Isso é consequência de médium com distúrbio psicológico, com certeza! 
No Mundo Espiritual, o ambiente difere totalmente do Planeta, pois lá, como descrevem os Espíritos comunicantes, não há frio nem calor excessivo, não há terremotos nem tempestades. Nas Colônias Espirituais, os domicílios não se amontoam uns sobre os outros como nas grandes cidades terrestres; eles oferecem espaços regulares entre si, como a indicar que naquele abençoado reduto de fraternidade e auxílio cristão há lugar para todos. Não há estabelecimentos comerciais, mas, em compensação, há grande número de instituições consagradas ao bem coletivo.¹
O processo utilizado pelos desencarnados em seus engenhos e edificações é pela energia do pensamento e da vontade. O pensamento é força criadora e a vontade é força propulsora. Através destas duas potencialidades, os Espíritos constroem tudo o que desejam. O Universo é seu laboratório.² Podem formar conjuntos com aparência, forma e cor determinadas. Kardec inclui essas possibilidades dos fenômenos peculiares ao mundo espiritual no que chamou de laboratório do mundo invisível.
Muitos Espíritos dizem que a luz do Sol por lá é agradável e reconfortante. Realmente há edificações belíssimas, algumas de séculos, protegidas por muralhas, armas e até animais, onde os habitantes têm o desfrute de deleites e costumes tipicamente físicos, como nutrição, por isso há plantações e fábricas diversas (sucos, roupas etc.).
Aos desencarnados muito atrelados à vida material que chegam ao Mundo Espiritual sem compreenderem a transformação por que passaram, e têm ainda sensação de fome e sede, lhes são ministrados alimentos em instalações especiais, até que, adaptados ao meio em que iniciaram a nova vida, entendam que não têm mais necessidade desses alimentos.
Sobre esse quesito alimentação, alguns Espíritos necessitam de substâncias suculentas, tendentes à condição fluídica, e o processo será cada vez mais delicado, à medida que se intensifique a ascensão individual, pois a alma, em essência, apenas se nutre de amor.
De forma geral, é indispensável os concentrados fluídicos nas operações nutritivas. Em face da essencialização das substâncias absorvidas, não existem para o veículo psicossomático³ os exageros e inconveniências dos sólidos [bolo fecal] e líquidos [urina] da excreta comum.⁴ A exsudação se dá pelos poros. À vista disso, e não obstante algumas psicografias famosas de romances “espíritas” que descrevem supostos banheiros no além, constatamos aqui com André Luiz que inexistem “vasos sanitários” e “mictórios” por “lá”.
Pela difusão cutânea, o corpo espiritual, através de sua extrema porosidade, nutre-se de produtos sutilizados ou sínteses quimioeletromagnéticas, hauridas no reservatório da Natureza.⁵ A água é veículo dos mais poderosos para os fluidos de qualquer composição. No Além, ela é empregada sobretudo como alimento e remédio.
É de extraordinária importância a respiração no sustento do corpo espiritual. Na Terra, o homem se alimenta muito mais pela respiração [70%], colhendo o alimento de volume [30%] simplesmente como recurso complementar de fornecimento plástico e energético, para o setor das calorias necessárias à massa corpórea. ⁶
Não ignoramos que os espíritos conservam as faculdades que tinham na Terra; eles têm visão, audição, sensação, percepção, mas diferentemente de quando possuíam um corpo físico, ainda que muitos deles em claudicação, julguem que tais coisas se passam, por lá, da mesma forma que no corpo.
Destaque-se que os Espíritos estão por toda parte, nenhum lugar circunscrito ou fechado se destina a uns ou a outros, segundo consta em o Livros dos Espíritos.⁷ O fato de estarem os desencarnados “por toda a parte” deve ser explicado com sensatez, como existindo colônias ou construções fluídicas em toda parte do Além.
Referências Bibliográficas:
1 XAVIER, Francisco Cândido. Voltei, ditado pelo Espírito Irmão Jacob, RJ: Ed. FEB, 1958
2 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, per. 27, RJ: Ed. FEB, 1971
3 A constituição íntima do perispírito não é idêntica em todos os espíritos encarnados ou desencarnados que povoam a Terra ou o espaço que a circunda. 
4 XAVIER, Francisco Cândido. Evolução em dois mundos, ditado pelo Espírito André Luz, 20ª. Edição, RJ: Ed. FEB, 1958
5 XAVIER, Francisco Cândido. Missionários da Luz, ditado pelo Espírito André Luiz, RJ: Ed FEB, 1971
6 Idem
7 KARDEC, Allan. O Livros dos Espíritos, questão 188, RJ: Ed FEB, 1976.
Publicado na página https://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com