terça-feira, 15 de novembro de 2022

CONTO - O CASO DO HOMEM QUE DORMIU NO CEMITÉRIO

 


O caso do homem que dormiu no cemitério—

Por Estênio Negreiros

estenio.gomesnegreiros57@gmail.com


Num entardecer morno de um dia de sábado de verão do mês de agosto de 1962, já boquinha-da-noite, um homem tangia o seu pequeno comboio, composto de cerca de dez jumentos, arreados com cangalhas, acondicionadas em surrões feitos de palha de carnaúba, uma variada carga de mercadorias destinada aos pequenos comerciantes do povoado de Betânia, um pequeno lugarejo que, naquele tempo, não abrigava mais do que duzentas almas, situado no Município de Hidrolândia, aqui no Estado do Ceará.

Atrás da tropa e um pouco distante dela, vinha o seu condutor, Gonçalo Rosa, primo legítimo de meu pai, montado no seu burrinho que trotava ansioso, pois já pressentia os ares da casa do seu dono que ficava a pouco menos de um quilômetro de distância. Provinham eles, homem e animais, da cidade de Nova Russas, CE, que distava cerca de sete léguas, aonde tinham ido dois dias antes participar da feira pública semanal daquela comuna, o que aquele almocreve fazia habitualmente a cada quinze dias. Na ida, haviam transportado dezenas de meios de sola curtida para serem vendidos no comércio local. A sola é o couro curtido de bovino, caprino ou ovino, próprio para a confecção de alpargatas, arreios, correias etc. O curtume desses couros era a principal atividade de alguns habitantes daquele pequeno distrito, dentre eles, o tangedor do comboio.

Os jumentos seguiam apressados, parecendo querer chegar logo ao seu destino para verem-se livres do peso que carregavam e matar a fome e a sede no pasto de um cercado. O badalar dos seus chocalhos quebrava o silêncio que naquela hora se impunha naquele sertão seco e quente.

Antes de se chegar ao povoado, vindo-se dos lados da Fazenda Pereiros, onde nasci, tinha-se, inevitavelmente, de passar bem ao lado do pequeno cemitério da localidade, pouco habitado, diga-se de passagem, que era protegido por uma cerca alta de pau-a-pique.

Poucas coisas costumam fazer medo ao sertanejo e uma delas são as “almas do outro mundo”. Para ele, um cemitério está povoado delas. É por isso que ele costuma dizer que homem nenhum passa perto de “um campo santo” sem sentir um pouco de medo, aquele arrepio que sobe dos pés à cabeça, engrossando o corpo e causando uma vontade maluca de sair correndo. Uns correm desabaladamente, outros não correm porque temem ser perseguidos por uma alma numa corrida desigual. Não adianta correr, pois o medo aumenta mais ainda! E tanto faz ser de dia como de noite. A sensação é sempre a mesma. Digo isso por experiência própria, pois tive de passar muitas vezes por aquele mesmo lugar, tanto à luz do dia quanto na escuridão, a cavalo ou a pé. Que pavor! Nessa situação, o melhor a se fazer é não espiar para dentro do campo santo e não olhar para trás depois de passar por ele, no estilo “não te vi, não te conheço” e assobiar pra disfarçar o medo.

Gonçalo Rosa estava tão habituado a fazer aquele trajeto que já nem deveria sentir tanto receio de passar por ali, onde todos os sepultados eram da nossa família, amigos e conhecidos.

Aquele dia, porém, ia ser muito diferente para ele, em vista das circunstâncias que narraremos adiante.

Por volta das duas horas da tarde daquele mesmo sábado, Eduardo Lino, em sua casa na localidade de Juá, pertencente ao território da Fazenda Pereiros, após lavar os pés e o rosto com a água contida numa cuia grande, vestiu sua roupa de mescla azul-marinho, calçou as "alpergatas" de sola grossa e disse pra sua mulher que ia comprar os mantimentos e víveres para a semana seguinte: rapadura, farinha, querosene, fumo etc. E lá se foi ele. Pulou o passador que dava para um cercado próximo e ganhou as capoeiras em demanda do povoado de Betânia, que ficava a mais de meia légua de distância e que ele percorria em mais ou menos uma hora.

Eduardo, que Deus o tenha, era o que costumamos chamar no sertão de “um pau-d’água”. Era um homenzarrão de mais ou menos um metro e oitenta de altura, fala grossa embora mansa, riso fácil, mas arengueiro quando se embebedava. Gostava de tomar cachaça. Tanto em casa, onde mantinha sempre um litro de aguardente de reserva, quanto nas bodegas da redondeza.

Ao chegar ao seu destino, dirigiu-se à bodega do Mousinho, filho de Gonçalo Rosa, e tomou logo um trago generoso num copo de fundo falso, da cachaça avermelhada, destilada na Serra da Ibiapaba. Forneceu-se, fiado, dos mantimentos de que necessitava, colocou-os num saco grande de pano e passou a perambular pelas poucas mercearias, conversando com os conhecidos e tomando os seus goles. Decorrido cerca de uma hora depois de sua chegada, já andava meio grogue, pendendo, a voz empastada, falando alto. Beber com a barriga vazia é embriaguez na certa e aquele pobre homem havia comido pela última vez no almoço frugal que havia engolido por volta das dez e meia da manhã daquele dia, constituído de feijão escoteiro, farinha e rapadura.

Lá pelas quatro e meia da tarde, já muito troviscado, decidiu ir-se embora. Bebeu a derradeira “bicada” e tomou o caminho de casa. Quando chegou ao cemitério, as pernas bambas, já não suportando o peso do corpo, não titubeou. Como o portão estava destrancado, não teve dúvida: entrou, cambaleante, sentou-se encostado à cerca e ali ficou, meio adormecido, esperando a bebedeira passar.

O comboio de jumentos já havia passado pelo cemitério, enquanto Gonçalo Rosa, pensativo, na sela do seu burro, olhos fixos no chão da estrada, chegou ao primeiro canto da cerca, à esquerda do viajante. O Sol já se pusera há algum tempo e fazia aquele lusco-fusco que impede de ver nitidamente. Quando alcançou o meio do lance do cercado, ouviu uma voz grave e profunda, vinda de dentro do cemitério, dizer: “Já vem, né cumpade Gonçal”? Surpreso e assombrado com o que ouviu, Gonçalo ergueu a cabeça subitamente, olhou pra trás, olhou pra mataria à direita e depois pra dentro do cemitério. Como não viu o dono da voz que falara o seu nome, não pensou duas vezes: esporeou o burrinho com toda a força dos calcanhares e o animal arrancou, numa carreira desembestada, em demanda do povoado. Passou pelo seu comboio de jumentos e só foi parar na calçada da bodega do seu filho Mousinho que àquela hora se achava apinhada de fregueses. Desceu do burro, pálido e quase sem voz, entrou no estabelecimento e foi direto ao balcão. O filho, vendo o estado do pai, indagou-lhe o que tinha havido. Como ele hesitasse em responder, o bodegueiro deu-lhe um trago de cachaça que foi engolido de uma só vez. Foi então que pôde responder, já um tanto mais serenado, dizendo apenas: “Uma voz, uma alma, no cemitério...”

Gonçalo era um homem direito e todos acreditavam nele, por isso, a notícia correu e se espalhou pelo povoado inteiro: “O ‘Gonçal’ Rosa viu uma alma no cemitério”! Foi o bastante pra deixar todo o mundo com medo. Ninguém, naquela noite, se aventuraria a ir para os lados do campo dos mortos.

Dia seguinte, domingo pela manhã, retorna Eduardo à povoação e, na dita bodega do Mousinho, toma conhecimento da novidade da tarde anterior: a alma ouvida pelo Gonçalo Rosa. Ao saber do ocorrido, ele cai na gargalhada, gesto que intriga a todos. Foi então que ele narrou a versão do fato. Não era alma, coisíssima nenhuma, era ele próprio que tinha caído, bêbado, dentro do cemitério. Despertara ao ouvir o chocalhar da jumenteira e chamara o nome do amigo que passava. Um misto de alívio e decepção tomou conta dos moradores. Alívio, porque arrefecia o medo que aquela “alma” estava causando à população, e decepção pelo ridículo risível pelo qual passou um dos homens mais acreditados e probos do lugar Betânia.

Casos como o narrado acima não são singulares. Muitos têm tomado ocorrências naturais por sobrenaturais, distorcendo, assim, a veracidade dos sucessos.

No início do Capítulo IX – Dos Lugares Assombrados – de “O Livro dos Médiuns”, se expressa Allan Kardec desta maneira: “As manifestações espontâneas que se produziram em todos os tempos, e a persistência de alguns Espíritos em darem sinais ostensivos de sua presença em determinadas localidades, são a origem da crença em lugares assombrados”. Kardec, no mesmo capítulo, formula diversas questões aos Espíritos sobre o assunto. Na questão ‘5’, por exemplo, ele indaga: “As crenças populares, em geral, têm um fundo de verdade; qual pode ser a origem da crença nos lugares assombrados?” Resposta: “O fundo de verdade é a manifestação dos Espíritos, na qual o homem acreditou em todos os tempos, instintivamente; mas, como já disse, o aspecto dos lugares lúgubres toca a sua imaginação e ele coloca aí naturalmente os seres que considera como sobrenaturais. Essa crença supersticiosa é mantida pelas narrativas dos poetas e os contos fantásticos com os quais embalaram sua infância”. Na questão ‘8’, ele pergunta: “Os Espíritos voltam de preferência aos túmulos onde repousam seus corpos?” Replicam os Espíritos: “O corpo não é senão uma veste; eles não se ligam mais ao envoltório que os fez sofrer do que os prisioneiros às suas cadeias. A lembrança das pessoas que lhes são caras é a única coisa à qual dão valor”.

É a nossa arraigada crença de que as almas permanecem indefinidamente junto aos seus despojos carnais nos cemitérios a causa da produção de fatos como este que acabamos de narrar.
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Publicado na página http://www.oconsolador.com.br/ano8/365/jose_negreiros.html em 1º de junho de 2014.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

FATOS DO BRASIL IMPÉRIO

 Família Imperial Dom Pedro II, Princesa Isabel, Tereza Cristina e Princesa Leopoldina aparentemente grávida Fotografias Antigas, Fotos Antigas, Princesa Leopoldina, Família Real Brasileira, Monarquia Portuguesa, Arquivo Nacional, Brasil Imperial, Rio De Janeiro Cidade, História De Portugal

Família Imperial
HONRA E DIGNIDADE - A IMAGEM DO BRASIL
Nosso Imperador é admirado e respeitado no mundo inteiro
O Conde Soderini escreveu: “O Imperador do Brasil era amado em todo o mundo, e era naquele tempo, juntamente com o Papa, a maior autoridade moral entre os homens de todos os países”.
D. Pedro II foi objeto da maior veneração do Visconde de Taunay. Com a mais perfeita sinceridade, dizia:
— Valeria a pena ser-se brasileiro, só para se ter como soberano um Pedro II.
Elizalde, ministro de Estrangeiros da Argentina no governo de Mitre, declarava-se disposto a não se separar do Governo Imperial, no qual confiava: “Trata-se de um governo sério, presidido por um soberano de grande merecimento”.
Andrés Lamas, ministro de Estrangeiros do Uruguai, dizia: “Deposito uma fé cega, uma confiança sem limites, na inteligência e lealdade desse Soberano”.
Numa das mais sombrias fases da tirania de Rosas, conversavam Mitre e Sarmiento. Avassalado pelo desânimo, Mitre desabafou:
— Não há mais uma única esperança.
Sarmiento retrucou:
— Há sim. É o Imperador do Brasil.
Em 1882, agravara-se estranhamente o incidente com a Argentina, em torno da questão das “Missões”. Vozes surdas, nos dois países, exigiam a guerra. O ex-presidente argentino Nicolao Avellaneda veio em missão diplomática ao Brasil, sendo recebido por D. Pedro II. Ao final da conversa, o diplomata insistiu:
— O necessário é a paz, não a paz desconfiada da Europa, mas sincera.
— Leve ao seu país esta promessa minha. Enquanto eu for vivo, não consentirei na guerra. Necessitamos salvar meio continente. E salvaremos.
No dia seguinte a tempestade desvaneceu-se. Bastara o encontro de dois homens.
Em 1877, quando se iniciava a campanha política nacional nos Estados Unidos, o “New York Herald” relembrou a visita do Imperador, e apresentou a seguinte proposta: “Para nossa chapa Centenária, indicamos Dom Pedro II e Charles Francis Adams, para presidente e vice-presidente. Estamos cansados de gente comum, e sentimo-nos dispostos a apoiar gente de estilo”.
Por ocasião do casamento de uma filha, o banqueiro inglês Rothschild quis dar-lhe um presente de grande valor. O presente escolhido: apólices da dívida do Império brasileiro. Causou estranheza a escolha, e a alguém que lhe perguntou o motivo, respondeu:
— Isto vale mais do que ouro.
A dignidade e a honra da Nação: Sem honra não quero ser Imperador
Em dezembro de 1862, o plenipotenciário inglês no Rio de Janeiro começou a praticar uma série de violências, fazendo aprisionar diversos navios mercantes brasileiros. Christie alegava para isso o fútil motivo da prisão em terra de alguns marinheiros ingleses embriagados, e o não acatamento do Governo à sua reclamação relativa a um navio inglês naufragado nas costas do Rio Grande do Sul.
Na baía de Guanabara, os marinheiros das naus britânicas ali fundeadas mostravam com gestos insultuosos, aos passageiros das barcas de Niterói, a boca dos seus canhões. O povo, não podendo conter a sua justa indignação, dirigiu-se em massa ao Paço da Cidade, onde o Imperador se achava reunido com o Conselho de Estado. Milhares de vozes pediram que não tardassem as represálias à insolência do embaixador e dos marinheiros ingleses. D. Pedro, chegando a uma das janelas da frente, gritou:
— Calma, calma, senhores! Eu sou primeiro que tudo brasileiro, e como tal, mais do que ninguém, estou empenhado em manter ilesas a dignidade e a honra da Nação. E assim como confio no entusiasmo do meu povo, confie o povo em mim e no meu Governo, que vai proceder como as circunstâncias requerem, mas de modo que não seja ultrajado o nome de brasileiros, de que todos nos ufanamos. Onde sucumbirem a honra e a soberania da Nação, eu sucumbirei com elas. Confiem no meu Governo, e fiquem certos de que sem honra não quero ser Imperador!
O Brasil rompeu relações diplomáticas com a Inglaterra, e a questão foi arbitrada pelo rei da Bélgica, que nos deu plena razão.
Foi como vitorioso, e acompanhado de seus aliados argentinos e uruguaios, que o Imperador quis receber o pedido de desculpas da poderosa Grã-Bretanha. Em Uruguaiana, após a rendição das tropas paraguaias sitiadas, o Imperador recebeu as desculpas oficiais da Inglaterra pelas arbitrariedades praticadas por Christie. O Conde d’Eu narra deste modo a cerimônia:
“Chegou do Sul, por terra, o Sr. Edward Thornton, embaixador britânico em Buenos Aires. Vem encarregado pelo governo da Rainha para exprimir ao Imperador o seu pesar pelas violências que haviam praticado os navios da estação inglesa no Rio de Janeiro, em 1862, e pela ruptura de relações diplomáticas que se lhes seguiu, e que até hoje tem durado. O Imperador marcou a hora de meio-dia para o receber na barraca, com toda a solenidade que as circunstâncias comportam. Foram convidados para assistir à cerimônia os comandantes de todos os corpos.
Cada um se veste o melhor possível para esta solenidade diplomática. Torna-se a armar a barraca com as velas e bandeiras, e até se descobre um tapete. Ao lado forma um batalhão de linha completo. Além dos oficiais convocados, muitos outros vieram, desejosos de assistir a esta satisfação que se vai dar à honra nacional.
Tendo-se o Imperador colocado ao fundo da barraca, e a seus lados o ministro e as outras pessoas principais, o general Cabral introduz o Sr. Thornton, que veio da cidade em carruagem escoltada por um destacamento de cavalaria. Veste o uniforme diplomático com a comenda da Ordem do Banho. Depois das três reverências do estilo, pronuncia um longo discurso em francês, e em seguida entrega ao Imperador a carta da Rainha Vitória. Responde-lhe o Imperador igualmente em francês, e logo em seguida a banda colocada do lado de fora toca o ‘God save the Queen’, melodia que bem longe estávamos de supor que viéssemos ouvir aqui no fundo da província do Rio Grande do Sul”.
O Imperador não transige em questão de honra: Não provocamos a guerra, não proporemos a paz
Em luta com os ministros que não queriam deixá-lo partir para o Rio Grande do Sul, no início da guerra do Paraguai, o Imperador cortou a discussão, dizendo:
— Ainda me resta um recurso constitucional: se não parto como Imperador, abdico e vou para o Rio Grande como um voluntário da Pátria.
Declarada a guerra ao tirano Solano López, do Paraguai, seguiu o Imperador com seus genros, a incitar os seus súditos ao cumprimento do dever, por seu exemplo pessoal. Ao embarcar, disse à multidão que o aplaudia:
— Sou defensor perpétuo do Brasil, e quando os meus concidadãos sacrificam sua vida em holocausto sobre as aras da Pátria, em defesa de uma causa tão santa, não serei eu que os deixe de acompanhar.
Em momento de desânimo do seu Ministério, durante a guerra do Paraguai, o presidente do Conselho de Ministros consultou D. Pedro sobre a conveniência de se chegar a um acordo com o tirano inimigo. O Imperador, sempre delicado e tranqüilo, desta vez perdeu a calma. Ergueu-se indignado, bateu com o punho cerrado na mesa dos despachos, e bradou:
— Nunca! Nós não provocamos a guerra, não proporemos a paz! Se o sacrifício é enorme, maior seria a humilhação. Agora, é irmos até o fim. Eu partirei de novo para a guerra, se a minha presença se tornar necessária lá. Trocarei o trono por uma tenda de campanha. E quero ver se há algum brasileiro que não me acompanhe!
Em seu diário, D. Pedro II anotou: “Fala-se em paz no Rio da Prata. Eu não negocio com López! É uma questão de honra, e eu não transijo!”
Exigira a perseguição de López como se sua intenção fosse conquistar o Paraguai. Conseguida a vitória, mandava voltar os regimentos, apressava a restituição do território aos seus donos, para que a esponja do tempo apagasse a larga mancha de sangue. Era um capítulo encerrado. Nem anexações, nem compensações, nem castigos. Quitavam-se compromissos, com um saldo de idealismo. Salvara-se o prestígio das armas, mas não se agravara o direito das gentes. O Império não esmagava, retraía-se. Fizera a todo custo a guerra, o que era compreensível. Mas resistira às tentações do triunfo, o que foi exemplar.
A nossa vitória sobre os paraguaios, e o cavalheirismo com que tratamos nossos inimigos derrotados, deu-nos um grande prestígio junto aos nossos aliados na guerra, e junto a todas as repúblicas hispano-americanas.
Com relação à acusação que em certa época lhe faziam, de querer sustentar a guerra com o objetivo de ampliar o domínio territorial brasileiro, D. Pedro II registra em seu diário: “Protesto contra qualquer idéia de anexação de território estrangeiro”.
Anos mais tarde, quando se ventilava a nossa questão de limites com a Argentina, afirmou que não transigia:
— Ou o território é nosso, e não devemos alienar uma polegada dele, ou pertence ao nosso vizinho, e então é justo não querermos uma polegada do que não nos pertence.
D. Pedro II, que vencera uma longa e árdua guerra contra o Paraguai, e não tomara ao vencido um palmo do território, não se conformava também com a anexação da Alsácia-Lorena pela Alemanha. Em 1889, revelou: “Ouvi do finado Imperador Guilherme I, que com prazer chamo sempre de compadre, que ele nunca foi partidário da anexação. Não conheci velho mais amável. O gênio bélico era Bismarck. Evitei-o. Admiro o homem, mas não o estimo”.
O senso da dignidade nos atos do Imperador
D. Pedro II não poderia manter-se indiferente às reiteradas provocações do governo uruguaio, que consentia que a nossa bandeira servisse de tapete na porta de entrada dos salões do clube presidido por Leandro Gomez. Mandou Saraiva para Montevidéu, em missão especial, a fim de alcançar uma solução honrosa. O almirante Tamandaré só foi autorizado a usar de represálias depois que fracassaram as tratativas diplomáticas.
Quando foi aprisionado pelo tenente-coronel Oliveira Bello, Leandro Gomez pediu para ser entregue aos seus correligionários, e o seu desejo foi cavalheirescamente satisfeito. Entretanto, logo que as tropas brasileiras deixaram Paissandu, os seus próprios patrícios exigiram o seu fuzilamento, como reparação à chacina de Quinteros, da qual ele fora o principal instigador. Ao saber daquele ato de covardia, D. Pedro II o condenou formalmente, e exigiu a punição do coronel Goyo Suarez, que se havia comprometido a assegurar a vida do nosso insolente inimigo.
Logo após a vitória sobre o Paraguai, houve manifestações populares e revolta de militares no Rio, visando depor o Ministério constituído por Muritiba. Alguns militares, depois de percorrerem as ruas aclamando o Imperador e a Família Imperial, e exigindo a deposição do Gabinete, estabeleceram-se em frente ao Teatro Lírico, fazendo parar todos os coches da comitiva imperial, à procura do presidente do Conselho. O próprio carro do Imperador foi detido, e uns tenentes tomaram pelo freio os cavalos. D. Pedro II apareceu à portinhola, dominando o círculo ruidoso de manifestantes. Com voz clara e enérgica, mandou que o cocheiro fizesse partir o veículo:
— Não atendo a rogos de oficiais em plena rua!
Os militares se afastaram, e o carro prosseguiu.
Quando era ministro de Estrangeiros o senador Manuel Francisco Correia, D. Pedro II agraciou o grande estadista inglês Disraeli com a dignitária da Ordem da Rosa. Esse parlamentar recusou a graça imperial, por não ser assaz elevada como requeria a sua posição na Inglaterra. Só a Grã-Cruz lhe poderia convir, por ter já muitas de outras nações, e externou em carta ao ministro o motivo da sua recusa.
O ministro viu-se em sérios embaraços para transmitir tão desagradável notícia ao Monarca. Adiou a comunicação por vários despachos, e por fim a fez, certo de que obteria para o lorde inglês a Grã-Cruz da Ordem. Iludiu-se. O Imperador franziu a testa, e disse:
— Pois outra não lhe dou!
Depois de ouvir o concerto de um famoso pianista inglês na embaixada brasileira em Londres, por ocasião da viagem de D. Pedro II ao país, o Príncipe de Gales, futuro rei Eduardo VII, manifestou ao embaixador, Barão de Penedo, o desejo de que o pianista fosse condecorado pelo Brasil com a Ordem da Rosa. O Imperador não tolerava nesse pianista a falta de higiene. Ao saber da proposta do Príncipe de Gales, comentou ironicamente:
— Concordo, desde que antes o governo inglês lhe conceda a Ordem do Banho...
Na sua primeira viagem à Europa, estava D. Pedro II em Rouen, cidade francesa então ocupada pelas tropas alemãs. Conhecedor da presença do Soberano, o general Treslov, comandante da guarnição alemã de ocupação, foi cumprimentá-lo, comunicando-lhe que mandaria colocar à porta do hotel uma guarda de honra, e ordenaria que a banda militar alemã desse um concerto em sua homenagem.
Agradecendo a intenção delicada do comandante, D. Pedro recusou a homenagem:
— Se eu estivesse na Alemanha, aceitaria. Estou na França, entretanto, e não devo permitir que a música dos vencedores venha saudar-me em chão dos vencidos.
O general prussiano inclinou-se, acatando com admiração e respeito o gesto de delicada sensibilidade. E o povo francês, sabedor da recusa imperial, demonstrou sempre para com Dom Pedro os mais vivos sentimentos de simpatia.
Visitando em Baden-Baden D. Pedro II exilado, Silveira Martins foi convidado por ele para um famoso concerto em praça pública, no qual se apresentavam os melhores maestros da Alemanha, e era assistido por todas as pessoas de importância. Quando a figura imponente do Imperador apareceu, todos se levantaram, como se uma mola os tivesse impelido ao mesmo tempo. O regente da orquestra foi ao seu encontro e fez-lhe entrega do programa. Visivelmente comovido, o Imperador exilado voltou-se para Silveira Martins e disse:
— Isto não é feito a mim, mas ao nosso Brasil.
— Como protesto eloquentíssimo...
Nosso Imperador “yankee” – A popularidade de D. Pedro II nos Estados Unidos
Raros estrangeiros, e certamente nenhum outro chefe de Estado, desfrutou nos Estados Unidos, como D. Pedro II, uma tão grande popularidade e foi acolhido ali com tão expressivas provas de respeito, e mesmo de amizade. Não somente nos meios oficiais, políticos, intelectuais e outros, como igualmente na massa do povo, nas camadas mais modestas.
O entusiasmo pelo Imperador era enorme. Talvez ele tenha sido o visitante estrangeiro mais popular nos Estados Unidos. Qualquer coisa que ele fizesse tinha interesse. As pessoas ficavam fascinadas pelas suas qualidades.
A American Geographical Society organizou uma reunião especial, com a presença de D. Pedro II. Na saudação, Bayard Taylor afirmou: “Nunca esteve entre nós um estrangeiro que, após três meses de permanência, pareça ao povo americano tão pouco estrangeiro e tão amigo quanto D. Pedro II”.
O jornal “North American” comentou: “Nenhum governante, de nenhum país, tanto como homem quanto como governante, jamais teve tantos méritos diante dos Estados Unidos quanto D. Pedro II”.
O Imperador percorreu cerca de 15.000 quilômetros dentro dos Estados Unidos. Os políticos não perderam a oportunidade do exemplo para se fustigarem mutuamente, e um editor afirmou: “Quando ele voltar ao Brasil, estará conhecendo mais os Estados Unidos do que dois terços dos membros do Congresso”.
Em Baltimore, assistiu à “Dama das Camélias” no Teatro Opera Ford. Desde então, o camarote que ocupou passou a se chamar “camarote imperial”.
No dia 4 de julho de 1876, festa do centenário da independência americana, D. Pedro II se encontrava nos Estados Unidos, porém em caráter particular, como fazia durante as suas viagens.
Estava programado um espetáculo de gala, do qual participariam o presidente Ulysses Grant e toda a representação do mundo oficial. Ao hotel em que estava hospedado como “D. Pedro de Alcântara”, foi-lhe enviado um convite para assistir à solenidade no camarote do presidente americano. D. Pedro agradeceu e devolveu, dizendo que não estava ali como Imperador, portanto não podia aceitar, mas que iria em caráter particular. E foi. Mas o mestre de cerimônias o conduziu a um camarote “particular”, vizinho ao do presidente. Quando D. Pedro apareceu no seu lugar, em companhia da Imperatriz, correu-se a cortina que separava os dois camarotes, e ele se viu ao lado do presidente, no mesmo camarote.
Desfraldaram-se nesse momento, unidas, a bandeira americana e a brasileira. Logo depois a banda entoou o hino brasileiro, e uma multidão entusiástica, de pé, saudou com prolongadas palmas e vivas o nosso Imperador.
Tão grande era a admiração dos americanos pelo nosso Imperador, que nas eleições presidenciais de 1877 ele recebeu, só em Filadélfia, mais de 4.000 votos espontâneos.
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Publicado na página http://fatosdobrasilimperio.blogspot.com/2008/06/09-honra-e-dignidade-imagem-do-brasil.html