segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Edição de 7 de setembro de 2020 (1ª)

 

— O QUE FOI ISSO, D. PEDRO?—
Por Estênio Negreiros


Dr. Vasco Damasceno Weyne

O Dr. Vasco Damasceno Weyne (1931 - 2012), foi um dos juristas mas respeitados do Estado do Ceará. Foi procurador geral de Justiça do Estado e presidente da OAB-CE.
No início da década de 60 ele era promotor da Justiça na comarca de Nova Russas,CE, onde também lecionou no Ginásio Monsenhor Tabosa, amigo que era do seu diretor, na época, o Pe. Francisco Soares Leitão, que depois tornou-se monsenhor.
Nos anos 1960 e 1961, na primeira e na segunda série ginasial tive a honra de ser seu aluno nas matérias de Português e Francês. 
Era um homem alto, bem apessoado, sisudo (como deve ser um promotor do Interior), mas por trás do seu ar sério escondia-se uma personalidade brincalhona — pelo menos com os seus alunos — e que gostava de entremear suas excelentes e proveitosas aulas com anedotas engraçadas e de apelidar os seus discípulos. 
Numa véspera do feriado de Sete de Setembro ele abordou a importância da data que se avizinhava. E para sair do sério da aula ele falou que a nossa História continha muitas balelas, inventadas pelos historiadores de plantão, transformando um fato corriqueiro num grande acontecimento histórico, somente com o objetivo de elevar a importância do governante do momento. 
Contou ele que, naquele dia 07 de setembro de 1822, em sua longa viagem pelo Vale do Paraíba, que se tornaria célebre e memorável,  conhecido dali em diante como O Grito do Ipiranga, D. Pedro I não praticou o gesto heroico de desembainhar sua espada e proclamar a Independência do Brasil. Na verdade, conforme nos relatou o nosso inesquecível professor, o que ocorreu foi o seguinte: naquele sábado de 07 de setembro, quando regressava de Santos para São Paulo, D. Pedro e comitiva haviam almoçado na residência de um abastado fazendeiro da região e no cardápio do almoço, entre muitos acepipes, havia carne de porco, muito gorda, da qual o Imperador se empanturrou sem cerimônia. Após o almoço continuaram a viagem, sonolentos após o lauto banquete. Imagine uma pessoa de barriga cheia, montado num cavalo a trote! O movimento peristáltico se acelera e o intestino se solta. D. Pedro não suportou por muito tempo aquele sacolejar intestinal, apeou-se do seu animal e correu p'ro mato para aliviar-se. E foi naquele momento e naquela posição humilhante, literalmente de calças na mão, por volta das 16 horas, quando ele saía do mato assungando as calças, que o dito Correio Imperial lhe encontrou. Sua espada se encontrava sobre a sela do seu cavalo no leito da estrada, enquanto ele, com uma dor de barriga dos diabos, tentava abotoar sua braguilha, saindo de detrás de uma moita espessa de mato. E foi em pé, um pouco distante do seu cavalo, se tremendo de cólica intestinal, que ele recebeu a carta da sua esposa, a Princesa Leopoldina.
Portanto, nada do heroico ato contado nos livros da nossa História, de arremessar ao chão as fitas imperiais do seu chapéu, sacar a espada, erguê-la acima da sua cabeça e bradar: "Independência ou Morte!". Talvez o que mais ele desejasse naquele momento fosse uma dose do velho e eficaz Elixir Paregórico, se ele já existisse naquele difíceis tempos.
Terá sido o Grito da Independência uma "fake news"?
Fortaleza, 07 de setembro de 2020.


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