quinta-feira, 10 de setembro de 2020

FATOS DO BRASIL IMPÉRIO

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Família Imperial
HONRA E DIGNIDADE - A IMAGEM DO BRASIL
Nosso Imperador é admirado e respeitado no mundo inteiro
O Conde Soderini escreveu: “O Imperador do Brasil era amado em todo o mundo, e era naquele tempo, juntamente com o Papa, a maior autoridade moral entre os homens de todos os países”.
D. Pedro II foi objeto da maior veneração do Visconde de Taunay. Com a mais perfeita sinceridade, dizia:
— Valeria a pena ser-se brasileiro, só para se ter como soberano um Pedro II.
Elizalde, ministro de Estrangeiros da Argentina no governo de Mitre, declarava-se disposto a não se separar do Governo Imperial, no qual confiava: “Trata-se de um governo sério, presidido por um soberano de grande merecimento”.
Andrés Lamas, ministro de Estrangeiros do Uruguai, dizia: “Deposito uma fé cega, uma confiança sem limites, na inteligência e lealdade desse Soberano”.
Numa das mais sombrias fases da tirania de Rosas, conversavam Mitre e Sarmiento. Avassalado pelo desânimo, Mitre desabafou:
— Não há mais uma única esperança.
Sarmiento retrucou:
— Há sim. É o Imperador do Brasil.
Em 1882, agravara-se estranhamente o incidente com a Argentina, em torno da questão das “Missões”. Vozes surdas, nos dois países, exigiam a guerra. O ex-presidente argentino Nicolao Avellaneda veio em missão diplomática ao Brasil, sendo recebido por D. Pedro II. Ao final da conversa, o diplomata insistiu:
— O necessário é a paz, não a paz desconfiada da Europa, mas sincera.
— Leve ao seu país esta promessa minha. Enquanto eu for vivo, não consentirei na guerra. Necessitamos salvar meio continente. E salvaremos.
No dia seguinte a tempestade desvaneceu-se. Bastara o encontro de dois homens.
Em 1877, quando se iniciava a campanha política nacional nos Estados Unidos, o “New York Herald” relembrou a visita do Imperador, e apresentou a seguinte proposta: “Para nossa chapa Centenária, indicamos Dom Pedro II e Charles Francis Adams, para presidente e vice-presidente. Estamos cansados de gente comum, e sentimo-nos dispostos a apoiar gente de estilo”.
Por ocasião do casamento de uma filha, o banqueiro inglês Rothschild quis dar-lhe um presente de grande valor. O presente escolhido: apólices da dívida do Império brasileiro. Causou estranheza a escolha, e a alguém que lhe perguntou o motivo, respondeu:
— Isto vale mais do que ouro.
A dignidade e a honra da Nação: Sem honra não quero ser Imperador
Em dezembro de 1862, o plenipotenciário inglês no Rio de Janeiro começou a praticar uma série de violências, fazendo aprisionar diversos navios mercantes brasileiros. Christie alegava para isso o fútil motivo da prisão em terra de alguns marinheiros ingleses embriagados, e o não acatamento do Governo à sua reclamação relativa a um navio inglês naufragado nas costas do Rio Grande do Sul.
Na baía de Guanabara, os marinheiros das naus britânicas ali fundeadas mostravam com gestos insultuosos, aos passageiros das barcas de Niterói, a boca dos seus canhões. O povo, não podendo conter a sua justa indignação, dirigiu-se em massa ao Paço da Cidade, onde o Imperador se achava reunido com o Conselho de Estado. Milhares de vozes pediram que não tardassem as represálias à insolência do embaixador e dos marinheiros ingleses. D. Pedro, chegando a uma das janelas da frente, gritou:
— Calma, calma, senhores! Eu sou primeiro que tudo brasileiro, e como tal, mais do que ninguém, estou empenhado em manter ilesas a dignidade e a honra da Nação. E assim como confio no entusiasmo do meu povo, confie o povo em mim e no meu Governo, que vai proceder como as circunstâncias requerem, mas de modo que não seja ultrajado o nome de brasileiros, de que todos nos ufanamos. Onde sucumbirem a honra e a soberania da Nação, eu sucumbirei com elas. Confiem no meu Governo, e fiquem certos de que sem honra não quero ser Imperador!
O Brasil rompeu relações diplomáticas com a Inglaterra, e a questão foi arbitrada pelo rei da Bélgica, que nos deu plena razão.
Foi como vitorioso, e acompanhado de seus aliados argentinos e uruguaios, que o Imperador quis receber o pedido de desculpas da poderosa Grã-Bretanha. Em Uruguaiana, após a rendição das tropas paraguaias sitiadas, o Imperador recebeu as desculpas oficiais da Inglaterra pelas arbitrariedades praticadas por Christie. O Conde d’Eu narra deste modo a cerimônia:
“Chegou do Sul, por terra, o Sr. Edward Thornton, embaixador britânico em Buenos Aires. Vem encarregado pelo governo da Rainha para exprimir ao Imperador o seu pesar pelas violências que haviam praticado os navios da estação inglesa no Rio de Janeiro, em 1862, e pela ruptura de relações diplomáticas que se lhes seguiu, e que até hoje tem durado. O Imperador marcou a hora de meio-dia para o receber na barraca, com toda a solenidade que as circunstâncias comportam. Foram convidados para assistir à cerimônia os comandantes de todos os corpos.
Cada um se veste o melhor possível para esta solenidade diplomática. Torna-se a armar a barraca com as velas e bandeiras, e até se descobre um tapete. Ao lado forma um batalhão de linha completo. Além dos oficiais convocados, muitos outros vieram, desejosos de assistir a esta satisfação que se vai dar à honra nacional.
Tendo-se o Imperador colocado ao fundo da barraca, e a seus lados o ministro e as outras pessoas principais, o general Cabral introduz o Sr. Thornton, que veio da cidade em carruagem escoltada por um destacamento de cavalaria. Veste o uniforme diplomático com a comenda da Ordem do Banho. Depois das três reverências do estilo, pronuncia um longo discurso em francês, e em seguida entrega ao Imperador a carta da Rainha Vitória. Responde-lhe o Imperador igualmente em francês, e logo em seguida a banda colocada do lado de fora toca o ‘God save the Queen’, melodia que bem longe estávamos de supor que viéssemos ouvir aqui no fundo da província do Rio Grande do Sul”.
O Imperador não transige em questão de honra: Não provocamos a guerra, não proporemos a paz
Em luta com os ministros que não queriam deixá-lo partir para o Rio Grande do Sul, no início da guerra do Paraguai, o Imperador cortou a discussão, dizendo:
— Ainda me resta um recurso constitucional: se não parto como Imperador, abdico e vou para o Rio Grande como um voluntário da Pátria.
Declarada a guerra ao tirano Solano López, do Paraguai, seguiu o Imperador com seus genros, a incitar os seus súditos ao cumprimento do dever, por seu exemplo pessoal. Ao embarcar, disse à multidão que o aplaudia:
— Sou defensor perpétuo do Brasil, e quando os meus concidadãos sacrificam sua vida em holocausto sobre as aras da Pátria, em defesa de uma causa tão santa, não serei eu que os deixe de acompanhar.
Em momento de desânimo do seu Ministério, durante a guerra do Paraguai, o presidente do Conselho de Ministros consultou D. Pedro sobre a conveniência de se chegar a um acordo com o tirano inimigo. O Imperador, sempre delicado e tranqüilo, desta vez perdeu a calma. Ergueu-se indignado, bateu com o punho cerrado na mesa dos despachos, e bradou:
— Nunca! Nós não provocamos a guerra, não proporemos a paz! Se o sacrifício é enorme, maior seria a humilhação. Agora, é irmos até o fim. Eu partirei de novo para a guerra, se a minha presença se tornar necessária lá. Trocarei o trono por uma tenda de campanha. E quero ver se há algum brasileiro que não me acompanhe!
Em seu diário, D. Pedro II anotou: “Fala-se em paz no Rio da Prata. Eu não negocio com López! É uma questão de honra, e eu não transijo!”
Exigira a perseguição de López como se sua intenção fosse conquistar o Paraguai. Conseguida a vitória, mandava voltar os regimentos, apressava a restituição do território aos seus donos, para que a esponja do tempo apagasse a larga mancha de sangue. Era um capítulo encerrado. Nem anexações, nem compensações, nem castigos. Quitavam-se compromissos, com um saldo de idealismo. Salvara-se o prestígio das armas, mas não se agravara o direito das gentes. O Império não esmagava, retraía-se. Fizera a todo custo a guerra, o que era compreensível. Mas resistira às tentações do triunfo, o que foi exemplar.
A nossa vitória sobre os paraguaios, e o cavalheirismo com que tratamos nossos inimigos derrotados, deu-nos um grande prestígio junto aos nossos aliados na guerra, e junto a todas as repúblicas hispano-americanas.
Com relação à acusação que em certa época lhe faziam, de querer sustentar a guerra com o objetivo de ampliar o domínio territorial brasileiro, D. Pedro II registra em seu diário: “Protesto contra qualquer idéia de anexação de território estrangeiro”.
Anos mais tarde, quando se ventilava a nossa questão de limites com a Argentina, afirmou que não transigia:
— Ou o território é nosso, e não devemos alienar uma polegada dele, ou pertence ao nosso vizinho, e então é justo não querermos uma polegada do que não nos pertence.
D. Pedro II, que vencera uma longa e árdua guerra contra o Paraguai, e não tomara ao vencido um palmo do território, não se conformava também com a anexação da Alsácia-Lorena pela Alemanha. Em 1889, revelou: “Ouvi do finado Imperador Guilherme I, que com prazer chamo sempre de compadre, que ele nunca foi partidário da anexação. Não conheci velho mais amável. O gênio bélico era Bismarck. Evitei-o. Admiro o homem, mas não o estimo”.
O senso da dignidade nos atos do Imperador
D. Pedro II não poderia manter-se indiferente às reiteradas provocações do governo uruguaio, que consentia que a nossa bandeira servisse de tapete na porta de entrada dos salões do clube presidido por Leandro Gomez. Mandou Saraiva para Montevidéu, em missão especial, a fim de alcançar uma solução honrosa. O almirante Tamandaré só foi autorizado a usar de represálias depois que fracassaram as tratativas diplomáticas.
Quando foi aprisionado pelo tenente-coronel Oliveira Bello, Leandro Gomez pediu para ser entregue aos seus correligionários, e o seu desejo foi cavalheirescamente satisfeito. Entretanto, logo que as tropas brasileiras deixaram Paissandu, os seus próprios patrícios exigiram o seu fuzilamento, como reparação à chacina de Quinteros, da qual ele fora o principal instigador. Ao saber daquele ato de covardia, D. Pedro II o condenou formalmente, e exigiu a punição do coronel Goyo Suarez, que se havia comprometido a assegurar a vida do nosso insolente inimigo.
Logo após a vitória sobre o Paraguai, houve manifestações populares e revolta de militares no Rio, visando depor o Ministério constituído por Muritiba. Alguns militares, depois de percorrerem as ruas aclamando o Imperador e a Família Imperial, e exigindo a deposição do Gabinete, estabeleceram-se em frente ao Teatro Lírico, fazendo parar todos os coches da comitiva imperial, à procura do presidente do Conselho. O próprio carro do Imperador foi detido, e uns tenentes tomaram pelo freio os cavalos. D. Pedro II apareceu à portinhola, dominando o círculo ruidoso de manifestantes. Com voz clara e enérgica, mandou que o cocheiro fizesse partir o veículo:
— Não atendo a rogos de oficiais em plena rua!
Os militares se afastaram, e o carro prosseguiu.
Quando era ministro de Estrangeiros o senador Manuel Francisco Correia, D. Pedro II agraciou o grande estadista inglês Disraeli com a dignitária da Ordem da Rosa. Esse parlamentar recusou a graça imperial, por não ser assaz elevada como requeria a sua posição na Inglaterra. Só a Grã-Cruz lhe poderia convir, por ter já muitas de outras nações, e externou em carta ao ministro o motivo da sua recusa.
O ministro viu-se em sérios embaraços para transmitir tão desagradável notícia ao Monarca. Adiou a comunicação por vários despachos, e por fim a fez, certo de que obteria para o lorde inglês a Grã-Cruz da Ordem. Iludiu-se. O Imperador franziu a testa, e disse:
— Pois outra não lhe dou!
Depois de ouvir o concerto de um famoso pianista inglês na embaixada brasileira em Londres, por ocasião da viagem de D. Pedro II ao país, o Príncipe de Gales, futuro rei Eduardo VII, manifestou ao embaixador, Barão de Penedo, o desejo de que o pianista fosse condecorado pelo Brasil com a Ordem da Rosa. O Imperador não tolerava nesse pianista a falta de higiene. Ao saber da proposta do Príncipe de Gales, comentou ironicamente:
— Concordo, desde que antes o governo inglês lhe conceda a Ordem do Banho...
Na sua primeira viagem à Europa, estava D. Pedro II em Rouen, cidade francesa então ocupada pelas tropas alemãs. Conhecedor da presença do Soberano, o general Treslov, comandante da guarnição alemã de ocupação, foi cumprimentá-lo, comunicando-lhe que mandaria colocar à porta do hotel uma guarda de honra, e ordenaria que a banda militar alemã desse um concerto em sua homenagem.
Agradecendo a intenção delicada do comandante, D. Pedro recusou a homenagem:
— Se eu estivesse na Alemanha, aceitaria. Estou na França, entretanto, e não devo permitir que a música dos vencedores venha saudar-me em chão dos vencidos.
O general prussiano inclinou-se, acatando com admiração e respeito o gesto de delicada sensibilidade. E o povo francês, sabedor da recusa imperial, demonstrou sempre para com Dom Pedro os mais vivos sentimentos de simpatia.
Visitando em Baden-Baden D. Pedro II exilado, Silveira Martins foi convidado por ele para um famoso concerto em praça pública, no qual se apresentavam os melhores maestros da Alemanha, e era assistido por todas as pessoas de importância. Quando a figura imponente do Imperador apareceu, todos se levantaram, como se uma mola os tivesse impelido ao mesmo tempo. O regente da orquestra foi ao seu encontro e fez-lhe entrega do programa. Visivelmente comovido, o Imperador exilado voltou-se para Silveira Martins e disse:
— Isto não é feito a mim, mas ao nosso Brasil.
— Como protesto eloquentíssimo...
Nosso Imperador “yankee” – A popularidade de D. Pedro II nos Estados Unidos
Raros estrangeiros, e certamente nenhum outro chefe de Estado, desfrutou nos Estados Unidos, como D. Pedro II, uma tão grande popularidade e foi acolhido ali com tão expressivas provas de respeito, e mesmo de amizade. Não somente nos meios oficiais, políticos, intelectuais e outros, como igualmente na massa do povo, nas camadas mais modestas.
O entusiasmo pelo Imperador era enorme. Talvez ele tenha sido o visitante estrangeiro mais popular nos Estados Unidos. Qualquer coisa que ele fizesse tinha interesse. As pessoas ficavam fascinadas pelas suas qualidades.
A American Geographical Society organizou uma reunião especial, com a presença de D. Pedro II. Na saudação, Bayard Taylor afirmou: “Nunca esteve entre nós um estrangeiro que, após três meses de permanência, pareça ao povo americano tão pouco estrangeiro e tão amigo quanto D. Pedro II”.
O jornal “North American” comentou: “Nenhum governante, de nenhum país, tanto como homem quanto como governante, jamais teve tantos méritos diante dos Estados Unidos quanto D. Pedro II”.
O Imperador percorreu cerca de 15.000 quilômetros dentro dos Estados Unidos. Os políticos não perderam a oportunidade do exemplo para se fustigarem mutuamente, e um editor afirmou: “Quando ele voltar ao Brasil, estará conhecendo mais os Estados Unidos do que dois terços dos membros do Congresso”.
Em Baltimore, assistiu à “Dama das Camélias” no Teatro Opera Ford. Desde então, o camarote que ocupou passou a se chamar “camarote imperial”.
No dia 4 de julho de 1876, festa do centenário da independência americana, D. Pedro II se encontrava nos Estados Unidos, porém em caráter particular, como fazia durante as suas viagens.
Estava programado um espetáculo de gala, do qual participariam o presidente Ulysses Grant e toda a representação do mundo oficial. Ao hotel em que estava hospedado como “D. Pedro de Alcântara”, foi-lhe enviado um convite para assistir à solenidade no camarote do presidente americano. D. Pedro agradeceu e devolveu, dizendo que não estava ali como Imperador, portanto não podia aceitar, mas que iria em caráter particular. E foi. Mas o mestre de cerimônias o conduziu a um camarote “particular”, vizinho ao do presidente. Quando D. Pedro apareceu no seu lugar, em companhia da Imperatriz, correu-se a cortina que separava os dois camarotes, e ele se viu ao lado do presidente, no mesmo camarote.
Desfraldaram-se nesse momento, unidas, a bandeira americana e a brasileira. Logo depois a banda entoou o hino brasileiro, e uma multidão entusiástica, de pé, saudou com prolongadas palmas e vivas o nosso Imperador.
Tão grande era a admiração dos americanos pelo nosso Imperador, que nas eleições presidenciais de 1877 ele recebeu, só em Filadélfia, mais de 4.000 votos espontâneos.
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Publicado na página http://fatosdobrasilimperio.blogspot.com/2008/06/09-honra-e-dignidade-imagem-do-brasil.html

sexta-feira, 10 de abril de 2020

PRIMEIRA EDIÇÃO DE SEXTA-FEIRA, 10/4/2020

—O INJUSTO E ABSURDO JULGAMENTO DE JESUS—
No aniversário de Rui Barbosa, leia texto memorável do jurista.
A 5 de novembro de 1849, à Rua dos Capitães, na Freguesia da Sé, nasceu Rui Barbosa, na cidade do Salvador,BA. 
Advogado, jornalista, jurista, político, diplomata, ensaísta e orador, essa figura extraordinária marcou a História do Brasil com o seu brilhantismo.
Alejandro Carriles nos lembra que é aniversário de Rui e sugere, para comemorar a data, a publicação do texto abaixo que, como quase tudo que o mestre produziu, continua tão atual hoje quanto nos dias em que foi escrito.
Trata-se de uma das melhores e menos conhecidas páginas de Rui Barbosa, onde ele examina, à luz do Direito Hebraico e do Direito Romano, o processo de Jesus.

O JUSTO E A JUSTIÇA POLÍTICA
Por Rui Barbosa
Para os que vivemos a pregar à República o culto da Justiça como o supremo elemento preservativo do regímen, a história da Paixão, que hoje se consuma, é como que a interferência do testemunho de Deus no nosso curso de educação constitucional. O quadro da ruína moral daquele mundo parece condensar-se no espetáculo da sua Justiça, degenerada, invadida pela política, joguete da multidão, escrava de César. Por seis julgamentos passou Cristo, três às mãos do dos judeus, três às dos romanos, e em nenhum teve um juiz.
Aos olhos dos seus julgadores, refulgiu sucessivamente a inocência divina, e nenhum ousou estender-lhe a proteção da toga. Não há tribunais, que bastem, para abrigar o Direito, quando o dever se ausenta da consciência dos magistrados.
Grande era, entretanto, nas tradições hebraicas, a noção da divindade do papel da magistratura. Ensinavam elas que uma sentença contrária à verdade afastava do seio de Israel a presença do Senhor, mas que, sentenciando com inteireza, quando fosse apenas por uma hora, obrava o juiz como se criasse o Universo, porquanto era na função de julgar que tinha a sua habitação entre os israelitas a Majestade Divina.
Tampouco valem, porém, leis e livros sagrados, quando o homem lhes perde o sentimento, que exatamente no processo do Justo por excelência, Daquele em cuja memória todas as gerações até hoje adoram por excelência o Justo, não houve no código de Israel norma que escapasse à prevaricação dos seus magistrados.
No julgamento instituído contra Jesus, desde a prisão, uma hora talvez antes da meia-noite de Quinta-feira, tudo quanto se fez até ao primeiro alvorecer da Sexta-feira subseqüente, foi tumultuário, extrajudicial, a atentatório dos preceitos hebraicos. A terceira fase, a inquirição perante o Sinedrim, foi o primeiro simulacro de formação judicial, o primeiro ato judicatório, que apresentou alguma aparência de legalidade, porque ao menos se praticou de dia.
Desde então, por um exemplo que desafia a eternidade, recebeu a maior das consagrações o dogma jurídico, tão facilmente violado pelos despotismos, que faz da santidade das formas a garantia essencial da santidade do Direito.
O próprio Cristo delas não quis prescindir. Sem autoridade judicial O interroga Anás, transgredindo as regras assim na competência, como na maneira de inquirir; e a resignação de Jesus ao martírio não se resigna a justificar-se fora da lei: 
—"Tenho falado publicamente ao mundo. Sempre ensinei na sinagoga e no templo, a que afluem todos os judeus, e nunca disse nada às ocultas. Por que me interrogas? Inquire dos que ouviam o que lhes falei: esses sabem o que eu lhes houver dito"
Era apelo às instituições hebraicas, que não admitiam tribunais singulares, nem testemunhas singulares. O acusado tinha jus ao julgamento coletivo, e sem pluralidade nos depoimentos criminadores não poderia haver condenação. O apostolado de Jesus era ao povo.
Se a sua prédica incorria em crime, deviam pulular os testemunhos diretos. Esse era o terreno jurídico. Mas, porque o filho de Deus chamou a Ele os seus juízes, logo o esbofetearam. Era insolência responder assim ao pontífice. 
—"Sic respondes pontifici?" Sim, revidou Cristo, firmando-se no ponto de vista legal: 
"Se mal falei, traze o testemunho do mal; se bem, por que me bates?"
Anás, desorientado, remete o peso a Caifás. Este era o sumo sacerdote do ano. Mas, ainda assim, não não tinha a jurisdição, que era privativa do conselho supremo. Perante este já muito antes descobrira o genro de Anás a sua perversidade política, aconselhando a morte a Jesus, para salvar a nação. Cabe-lhe agora levar a efeito a sua própria malignidade, "cujo resultado foi a perdição do povo, que ele figurava salvar, e a salvação do mundo, em que jamais pensou".
A ilegalidade do julgamento noturno, que o Direito judaico não admitia nem nos litígios civis, agrava-se então com o escândalo das testemunhas falsas, aliciadas pelo próprio juiz, que, na jurisprudência daquele povo, era especialmente instituído como o primeiro protetor do réu. Mas, por mais falsos testemunhos que promovessem, Lhe não acharam a culpa, que buscavam. Jesus calava. Jesus autem tacebat.
Vão perder os juizes prevaricadores a segunda partida, quando a astúcia do sumo sacerdote lhes sugere o meio de abrir os lábios divinos do acusado. Adjura-o Caifás em nome de Deus vivo, a cuja invocação o filho não podia resistir. E diante da verdade provocada, intimada, obrigada a se confessar, Aquele, que a não renegara, vê-se declarar culpado de crime capital: Reus est mortis. "Blasfemou! Que necessidade temos de testemunhas? Ouvistes a blasfêmia". Ao que clamaram os circunstantes: "é réu de morte".
Repontava a manhã quando à sua primeira claridade se congrega o Sinedrim. Era o plenário que se ia celebrar. Reunira-se o conselho inteiro. In universo concilio, diz Marcos. Deste modo se dava a primeira satisfação às garantias judiciais. Com o raiar do dia se observava a condição da publicidade. Com a deliberação da assembléia judicial, o requisito da competência. Era essa a ocasião jurídica. Esses eram os juizes legais. Mas juízes, que tinham comprado testemunhas contra o réu, não podiam representar senão uma infame hipocrisia da Justiça. Estavam mancomunados para condenar, deixando ao mundo o exemplo, tantas vezes depois imitado até hoje, desses tribunais que se conchavam de véspera nas trevas, para simular mais tarde, na assentada pública, a figura oficial do julgamento.
Saía Cristo, pois, naturalmente condenado pela terceira vez. Mas o Sinedrim não tinha o jus sanguinis. Não podia pronunciar a pena de morte. Era uma espécie de júri, cujo veredictum, porém, antes opinião jurídica do que julgado, não obrigava os juizes romanos. Pilatos estava, portanto, de mãos livres, para condenar, ou absolver. 
"Que acusação trazeis contra este homem?" — assim fala por sua boca a justiça do povo, cuja sabedoria jurídica ainda hoje rege a terra civilizada. 
"Se não fosse um malfeitor, não to teríamos trazido", foi a insolente resposta dos algozes togados. Pilatos, não querendo ser executor num processo de que não conhecera, pretende evitar a dificuldade, entregando-lhes a vítima: 
"Tomai-o, e julgai-o segundo a vossa lei"
Mas, replicam os judeus: 
"Bem sabes que nos não é lícito dar a morte a ninguém". O fim é a morte, e sem a morte não se contenta a depravada justiça dos perseguidores.
Aqui já o libelo se trocou. Não é mais de blasfêmia contra a lei sagrada que se trata, senão de atentado contra a lei política. Jesus já não é o impostor que se inculca filho de Deus: é o conspirador, que se coroa rei da Judéia. A resposta de Cristo frustra ainda uma vez, porém, a manha dos caluniadores. Seu reino não era deste mundo. Não ameaçava, pois, a segurança das instituições nacionais, nem a estabilidade da conquista romana. 
"Ao mundo vim",  diz ele,  para dar testemunho da verdade. Todo aquele que for da verdade, há de escutar a minha voz"
A verdade? Mas "que é a verdade"? pergunta definindo-se o cinismo de Pilatos. Não cria na verdade; mas a da inocência de Cristo penetrava irresistivelmente até o fundo sinistro dessas almas onde reina o poder absoluto das trevas. 
"Não acho delito a este homem" disse o procurador romano, saindo outra vez ao meio dos judeus.
Devia estar salvo o inocente. Não estava. A opinião pública faz questão da sua vítima. Jesus tinha agitado o povo, não ali só, no território de Pilatos, mas desde a Galiléia. 
Ora, acontecia achar-se presente em Jerusalém o tetrarca da Galiléia, Herodes Antipas, com quem estava de relações cortadas o governador da Judéia. Excelente ocasião para Pilatos de lhe reaver a amizade, pondo-se, ao mesmo tempo, de boa avença com a multidão inflamada pelos príncipes dos sacerdotes. Galiléia era o forum originis do Nazareno. Pilatos envia o réu a Herodes, lisonjeando-lhe com essa homenagem a vaidade.
Desde aquele dia um e outro se fizeram amigos, de inimigos que eram. Et facti sunt amici Herodes et Pilatus in ipsa die; nam antea inimici erant ad invicem. Assim se reconciliam os tiranos sobre os despojos da Justiça.
Mas Herodes também não encontra por onde condenar a Jesus e o Mártir volta sem sentença de Herodes a Pilatos que reitera ao povo o testemunho da intemerata pureza do Justo. Era a terceira vez que a magistratura romana a proclamava. Nullam causam inveni in homine isto ex his, in quibus eum accusatis. O clamor da turba recrudesce.
Mas Pilatos não se desdiz. Da sua boca irrompe a Quarta defesa de Jesus: 
"Que ma fez esse ele? Quid enim mali fecit iste?" 
Cresce o conflito, acastelam-se as ondas populares. Então o procônsul lhes pergunta ainda: 
"Crucificareis o vosso rei?" A resposta da multidão em grita foi o raio que desarmou as evasivas de Pilatos. 
"Não conhecemos outro rei, senão César". 
A esta palavra o espectro de Tibério se ergueu no fundo da alma do governador da província romana. O monstro de Cáprea, traído, consumido pela febre, crivado de úlceras, gafado da lepra, entretinha em atrocidades os seus últimos dias. Traí-lo era perder-se. Incorrer perante ele na simples suspeita de infidelidade era morrer. O escravo de César, apavorado, cedeu, lavando as mãos em presença do povo:
 "Sou inocente do sangue deste justo".
E entregou-o aos crucificadores. Eis como procede a Justiça que se não compromete. A História premiou dignamente esse modelo da suprema cobardia na Justiça. Foi justamente sobre a cabeça do pusilânime que recaiu antes de tudo em perpétua infâmia o sangue do Justo.
De Anás a Herodes o julgamento de Cristo é o espelho de todas as deserções da Justiça, corrompida pela facções, pelos demagogos e pelos governos. A sua fraqueza, a sua inocência, a sua perversão moral crucificaram o Salvador, e continuam a crucificá-Lo, ainda hoje, nos impérios e nas repúblicas, de cada vez que um tribunal sofisma, tergiversa, recua, abdica. Foi como agitador do povo e subversor das instituições que se imolou Jesus.
E, de cada vez que há precisão de sacrificar um amigo do Direito, um advogado da verdade, um protetor dos indefesos, um apóstolo de idéias generosas, um confessor da lei, um educador do povo, é esse, a ordem pública, o pretexto, que renasce, para exculpar as transações dos juizes tíbios com os interesses do poder. Todos esses acreditam, como Pôncio, salvar-se, lavando as mãos do sangue que vão derramar, do atentado que vão cometer. Medo, venalidade, paixão partidária, respeito pessoal, subserviência, espírito conservador, interpretação restritiva, razão de estado, interesse supremo, como quer te chames, prevaricação judiciária, não escaparás ao ferrete de Pilatos! O bom ladrão salvou-se. Mas não há salvação para o juiz cobarde.
(A Imprensa, Rio, 31 de março de 1899, em Obras Seletas de Rui Barbosa, vol. VIII, Casa de Rui Barbosa, Rio, 1957, págs. 67-71.)
Da Revista Consultor Jurídico, 5 de novembro de 2002, 21h13.

domingo, 5 de abril de 2020

PRIMEIRA EDIÇÃO DE DOMINGO, 05/4/2020

DOMINGO DE RAMOS
Jesus e seus discípulos seguiram para Jerusalém. No caminho, Jesus pede para que seus discípulos Lhe arranjassem um animal de carga. E assim o fizeram. Jesus montou nele e prosseguiu a viagem. A estrada estava cheia de pessoas que também iam para Jerusalém para comemorar a páscoa judaica. Eles abriram alas para Jesus passar. Acenaram com ramos de árvores e forraram o chão com suas roupas. E ao segui-Lo iam gritando parte de um salmo, 118: 25-26:
— Hosana! Bendito o rei que vem em nome do Senhor!
O simbolismo do jumento pode ser uma referência à tradição oriental de que este é um animal da paz, ao contrário do cavalo, que seria um animal de guerra. Segundo esta tradição, um rei chegava montado num cavalo quando queria a guerra e num jumento quando procurava a paz. Portanto, a entrada de Jesus em Jerusalém simbolizaria sua entrada como um "príncipe da paz" e não um rei guerreiro.
Em muitos lugares no Oriente Próximo Antigo era costumeiro cobrir de alguma forma o caminho à frente de alguém que merecesse grandes honras. A Bíblia hebraica (II Reis 9:13) relatam que Jeú, filho de Josafá, recebeu este tratamento. Este era símbolo de triunfo e vitória na tradição judaica e aparecem em outros lugares da Bíblia (Levítico 23:40 e Apocalipse 7:9, por ex.). Por causa disto, a cena do povo recebendo Jesus com as palmas e cobrindo seu caminho com elas e com suas vestes se torna simbólica e importante.
O último domingo de Jesus na Terra ficou conhecida como "domingo de ramos."
OBSERVAÇÃO DE RUDYMARA: O último domingo de Jesus na Terra ficou conhecida como "domingo de ramos." Neste dia Ele entrou exaltado e saudado com repeito e alegria. Mas, quatro dias depois, os mesmos que O saudaram O condenaram à morte.
Ainda hoje fazemos isso a Ele. Nós O saudamos, dizemos que O amamos, compartilhamos Seus ensinamentos pelas redes sociais, mas em seguida, muitos de nós, O traímos quando nossas atitudes e palavras contrariam Seus pedidos. Com isso, condenamos à morte Seus ensinamentos. Mas Ele acredita em nós, porque nos compreende, sabe que ainda damos mais valor ás coisas materiais do que as espirituais, e assim, continua aguardando há mais de dois mil anos que O sigamos. Pensemos nisso!
Publicado na página http://grupoallankardec.blogspot.com/2012/04/domingo-de-ramos.html em 1º/4/2012.

A dor que é morta
Por Ricardo Orestes Forni
Que você já leu o ensinamento de que a fé sem obras é morta, não há dúvida, mas a afirmativa do título acima – a dor que é morta - tenho minhas dúvidas de que já tenha lido.
Por exemplo, quando em um sinaleiro da cidade nós vemos crianças esmolando para sustentar vícios dos pais, sentimos profundamente. Pelo menos creio que sim. Entretanto, quando o sinal nos autoriza prosseguirmos com o carro, aquela visão e o consequente sentimento de tristeza se esvaem.
Quando assistimos em qualquer canal de televisão à notícia de um pai que molestou sexualmente a própria filha por anos seguidos dentro da própria casa, um sentimento de revolta contra o agressor e de piedade para com a vítima são inevitáveis. Mas, quando o canal de televisão que anunciava a tragédia é desligado, tanto a revolta como a piedade desaparecem.
Essa epidemia, talvez até mesmo uma pandemia, do coronavírus, ceifando vidas aqui e acolá, gera um sentimento de fraternidade mundial, que serve para desviar o foco de atritos entre superpotências que põem em risco a paz do Planeta, mas faz nascer no coração do homem uma tristeza por existências que são ceifadas pela doença. Porém, assim que a moléstia for controlada, passará a existir tempo e espaço para que os atritos bélicos se reagudizem em vários pontos ocupados pelo ser humano, passando a impressão de que a Humanidade não tem mais um inimigo comum.
Ou seja, nosso amor pelo semelhante ainda é tão frágil que parece escapar assim que uma situação de sofrimento se perde no passado, mesmo que num passado muito precoce.
Irmão José no livro Com Cinco Pães E Dois Peixes, psicografia de Baccelli, Editora DIDIER, tem uma página que vem se encaixar e muito bem nessa realidade.
Diz ela: 
"Muitos se comovem diante da dor, mas nada fazem para amenizá-la.
Muitos lamentam a situação de penúria em que vive determinada pessoa, mas nada fazem para auxiliá-la.
Muitos se indignam com a injustiça que presenciam, mas nada fazem para combatê-la.
Muitos se entristecem com a infância desvalida nas ruas, mas nada fazem para socorrê-la.
Muitos clamam contra a crescente onda de violência, mas nada fazem para erradicá-la.
O mundo em ruínas não está precisando de quem chore sobre os seus escombros, mas, sim, de quem transpire na sua reconstrução."
Chico Xavier se comovia com a dor das pessoas que o procuravam, chorava com o desespero das mães que achavam que tinham perdido seus filhos, mas se doava totalmente nas longas horas de trabalho mediúnico trazendo notícias consoladoras aos corações mergulhados em dores atrozes.
O mesmo podemos dizer de Irmã Dulce, que não ficou a observar os necessitados esquecidos pelas ruas, mas, esmolando em todos os lugares por ela percorridos, conseguiu levar o socorro a tantos deles.
Madre Teresa de Calcutá está inserida nesse mesmo procedimento de amor aos seus semelhantes. Quantas peregrinações e lutas pelo Planeta!
Que se inclua exemplarmente Divaldo Franco com a sua gigantesca obra da Mansão do Caminho, sem mencionarmos sua tarefa mediúnica de grandeza ímpar e também as suas sacrificiais viagens a muitos países levando a mensagem consoladora do Espiritismo.
Muitos outros vultos teriam para ser citados, mas deixamos a cargo da lembrança de cada leitor essa menção.
O que podemos concluir do nosso comportamento de passar pela dor sem nada fazer, mesmo que seja muito pouco o que possamos doar para amenizá-la, é que toda dor que venhamos a sentir e que nada produz para suavizar o sofrimento daqueles que nos cruzam o caminho, a exemplo da fé sem obras, essa dor transitória, passageira, fugaz, essa dor que não nos mobiliza em direção ao sofredor, também é morta em si mesmo.
Publicado na página http://www.oconsolador.com.br/Ano 14 - N° 664 - 5 de Abril de 2020.

Epítome descritivo sobre o cenário e a vida além da sepultura
Por Jorge Hessen
jorgehessen@gmail.com
Brasília-DF
Quinta-feira, 26 de março de 2020
Conquanto haja kardequeólogos de plantão que andam rejeitando os livros do Espírito André Luiz, particularmente sigo por outros caminhos, acolhendo as revelações do autor de “Nosso Lar”, e de outros Benfeitores, com serena confiança. Em face disso, discorreremos se, na dimensão dos espíritos, realmente existem casas, templos, escolas, hospitais, ruas, árvores, parques.
Com certeza por “lá” não há vasos sanitários e mictórios. Lamentavelmente existem romances mediúnicos que não passam de abusos ficcionais criados por “médiuns” obsedados. Há um dilúvio desses romances alucinantes narrando que no Além os espíritos se casam, copulam e geram filhos, sim! Reproduzem!!! Afiançam que, pela fecundação, há a gestação, o nascimento dos “bebês” (pasmem!) Contam até que por lá o espírito morre, (morre!? meu Deus!!!) sobrevindo o sepultamento dos seus restos perispirituais em cemitérios d’além-túmulo. Isso é consequência de médium com distúrbio psicológico, com certeza! 
No Mundo Espiritual, o ambiente difere totalmente do Planeta, pois lá, como descrevem os Espíritos comunicantes, não há frio nem calor excessivo, não há terremotos nem tempestades. Nas Colônias Espirituais, os domicílios não se amontoam uns sobre os outros como nas grandes cidades terrestres; eles oferecem espaços regulares entre si, como a indicar que naquele abençoado reduto de fraternidade e auxílio cristão há lugar para todos. Não há estabelecimentos comerciais, mas, em compensação, há grande número de instituições consagradas ao bem coletivo.¹
O processo utilizado pelos desencarnados em seus engenhos e edificações é pela energia do pensamento e da vontade. O pensamento é força criadora e a vontade é força propulsora. Através destas duas potencialidades, os Espíritos constroem tudo o que desejam. O Universo é seu laboratório.² Podem formar conjuntos com aparência, forma e cor determinadas. Kardec inclui essas possibilidades dos fenômenos peculiares ao mundo espiritual no que chamou de laboratório do mundo invisível.
Muitos Espíritos dizem que a luz do Sol por lá é agradável e reconfortante. Realmente há edificações belíssimas, algumas de séculos, protegidas por muralhas, armas e até animais, onde os habitantes têm o desfrute de deleites e costumes tipicamente físicos, como nutrição, por isso há plantações e fábricas diversas (sucos, roupas etc.).
Aos desencarnados muito atrelados à vida material que chegam ao Mundo Espiritual sem compreenderem a transformação por que passaram, e têm ainda sensação de fome e sede, lhes são ministrados alimentos em instalações especiais, até que, adaptados ao meio em que iniciaram a nova vida, entendam que não têm mais necessidade desses alimentos.
Sobre esse quesito alimentação, alguns Espíritos necessitam de substâncias suculentas, tendentes à condição fluídica, e o processo será cada vez mais delicado, à medida que se intensifique a ascensão individual, pois a alma, em essência, apenas se nutre de amor.
De forma geral, é indispensável os concentrados fluídicos nas operações nutritivas. Em face da essencialização das substâncias absorvidas, não existem para o veículo psicossomático³ os exageros e inconveniências dos sólidos [bolo fecal] e líquidos [urina] da excreta comum.⁴ A exsudação se dá pelos poros. À vista disso, e não obstante algumas psicografias famosas de romances “espíritas” que descrevem supostos banheiros no além, constatamos aqui com André Luiz que inexistem “vasos sanitários” e “mictórios” por “lá”.
Pela difusão cutânea, o corpo espiritual, através de sua extrema porosidade, nutre-se de produtos sutilizados ou sínteses quimioeletromagnéticas, hauridas no reservatório da Natureza.⁵ A água é veículo dos mais poderosos para os fluidos de qualquer composição. No Além, ela é empregada sobretudo como alimento e remédio.
É de extraordinária importância a respiração no sustento do corpo espiritual. Na Terra, o homem se alimenta muito mais pela respiração [70%], colhendo o alimento de volume [30%] simplesmente como recurso complementar de fornecimento plástico e energético, para o setor das calorias necessárias à massa corpórea. ⁶
Não ignoramos que os espíritos conservam as faculdades que tinham na Terra; eles têm visão, audição, sensação, percepção, mas diferentemente de quando possuíam um corpo físico, ainda que muitos deles em claudicação, julguem que tais coisas se passam, por lá, da mesma forma que no corpo.
Destaque-se que os Espíritos estão por toda parte, nenhum lugar circunscrito ou fechado se destina a uns ou a outros, segundo consta em o Livros dos Espíritos.⁷ O fato de estarem os desencarnados “por toda a parte” deve ser explicado com sensatez, como existindo colônias ou construções fluídicas em toda parte do Além.
Referências Bibliográficas:
1 XAVIER, Francisco Cândido. Voltei, ditado pelo Espírito Irmão Jacob, RJ: Ed. FEB, 1958
2 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, per. 27, RJ: Ed. FEB, 1971
3 A constituição íntima do perispírito não é idêntica em todos os espíritos encarnados ou desencarnados que povoam a Terra ou o espaço que a circunda. 
4 XAVIER, Francisco Cândido. Evolução em dois mundos, ditado pelo Espírito André Luz, 20ª. Edição, RJ: Ed. FEB, 1958
5 XAVIER, Francisco Cândido. Missionários da Luz, ditado pelo Espírito André Luiz, RJ: Ed FEB, 1971
6 Idem
7 KARDEC, Allan. O Livros dos Espíritos, questão 188, RJ: Ed FEB, 1976.
Publicado na página https://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com

segunda-feira, 30 de março de 2020

PRIMEIRA EDIÇÃO DE SEGUNDA-FEIRA, 30/3/2020

–NOBREZA NA HISTÓRIA–
NOSTALGIA DE UM MUNDO COM A DOÇURA DE VIVER
Postado por LEON BEAUGESTE
As minhas leituras durante as férias haviam sido quase todas sobre a rainha Maria Antonieta, provavelmente a soberana mais caluniada da História. 
Desde os primeiros sintomas de uma revolução em marcha, ela era o alvo de acusações caluniosas: gastava quantias exorbitantes, era leviana e infiel ao marido Luís XVI. O caudal de acusações gratuitas ia se avolumando. Livretos satíricos, cançonetas, epítetos desprestigiantes, tudo tinha livre curso com a complacência ou conivência da polícia. Mas a realidade era muito diferente. O escritor e filósofo inglês Edmund Burke narra os dois encontros que teve com ela:
***
"Faz já dezesseis ou dezessete anos que vi a Rainha de França, em Versalhes, quando era ainda a jovem esposa do futuro rei. Sem dúvida, nunca tinha descido a este mundo – que ela mal parecia tocar – uma visão mais deleitável. Vi-a precisamente despontar no horizonte, adornando e animando a elevada esfera na qual começava a mover-se, cintilando como a estrela matutina, cheia de vida, esplendor e alegria.
Oh! que revolução! E que coração precisaria ter eu para contemplar, sem emoção, tal ascensão e tal queda! Não podia sequer sonhar – quando ela inspirava não só a veneração, mas também um amor entusiástico, distante e cheio de respeito – que alguma vez ela se veria obrigada a levar, escondido no seu seio, o pungente antídoto contra o opróbrio. Não podia imaginar que viveria para ver semelhantes desgraças abaterem-se sobre ela numa nação de homens galhardos, numa nação de homens honrados e de cavalheiros. Supus que dez mil espadas teriam saltado para fora das suas bainhas para vingar tão somente um olhar que a ameaçasse de um insulto. Porém, a era da Cavalaria passou. Sucedeu-a a dos sofistas, economistas e calculistas, e a glória da Europa está extinta para sempre.
Nunca, nunca mais contemplaremos aquela generosa lealdade para com a categoria e o sexo frágil, aquela ufana submissão, aquela obediência dignificada, aquela subordinação do coração, que até na própria servidão mantinha vivo o espírito de uma liberdade enaltecida. A inapreciável graça da vida, a pronta defesa das nações, o cultivo de sentimentos varonis e de empreendimentos heróicos, tudo isso desapareceu. Desapareceu aquela sensibilidade de princípios, aquela castidade da honra, que sentia uma mácula como uma ferida, que inspirava a coragem ao mesmo tempo que mitigava a ferocidade, que nobilitava tudo aquilo que tocava, e sob a qual o próprio vício, perdendo tudo o que tem de grosseiro, perdia a metade da sua maldade."
Diante de depoimentos como este, creio que se entenderá facilmente o motivo da minha intervenção naquela aula fatídica: eu estava de fato defendendo a honra e a memória de Maria Antonieta. Sem ser nobre, sem ter ao meu alcance uma espada, eu esgrimia com os falseadores da História e procurava convencer a todos do que eu agora sabia. Não apenas a impressão pessoal de um pensador e escritor como Burke, mas fatos, muitos fatos que me deixaram enlevado, agradecido àquela rainha simplesmente por ter existido. Neste primeiro dia, quero compartilhar com os amigos alguns desses fatos, além de outros sobre personagens nobres, fornecidos pelos meus colegas.
***
No dia 13 de janeiro de 1775, Maria Antonieta assistiu em Paris à ópera Iphigénie en Aulide, de Gluck. No segundo ato, um coral se inicia com o verso “Cantai, celebrai vossa rainha”. O cantor Achille o substituiu por “Cantemos, celebremos nossa rainha”. Nesse momento todo o público se levantou e prorrompeu em prolongados aplausos, que emocionaram a rainha até às lágrimas.(59:107)
***
Maria Antonieta assistiu a uma das apresentações da ópera-cômica “Pedro, o Grande”, da qual Grétry compusera a música. Quando ela apareceu em seu camarote, os assistentes aclamaram de pé suas três reverências. Depois de sentar-se, ela passeou o olhar pela sala e descobriu numa frisa a filha de Grétry, sua afilhada, cujo nome era Antonieta em sua homenagem. Retirando a luva, depositou sobre a ponta dos dedos um beijo, e o fez voar com um sopro para sua afilhada. Esta infração encantadora da etiqueta desencadeou uma tempestade de aplausos, de lágrimas, que interrompeu durante quase um quarto de hora a orquestra e os cantores.(41:85)
***
A rainha Maria Antonieta participava de todas as cerimônias da corte, mas preferia a vida doméstica e simples. Ao invés do grande teatro de Versalhes, preferia assistir com gosto às representações teatrais no pequeno teatro da cidade. Tinha ali uma frisa junto ao palco, e freqüentemente comparecia acompanhada da princesa de Lamballe. Numa cena da peça Os ceifadores, os personagens almoçam uma sopa de repolhos. A rainha gostou tanto do cheiro da sopa, que pediu autorização para participar da refeição, o que lhe foi concedido. Daí em diante, sempre que era representada a peça, havia na mesa um lugar reservado para a rainha.(27:2:393)
***
Um estudante de Tours visitou Versalhes, que era aberto a toda a população, em companhia de uma parenta grávida. Percorreram deslumbrados o palácio e caminhavam pelo jardim no meio da multidão de visitantes, mas a gestante manifestou sinais de cansaço. O estudante procurou um banco para ela sentar-se. Estavam todos ocupados, mas de repente ele viu um de mármore, onde estavam apenas duas senhoras, e cabia mais uma. Correu para lá e tomou posse do lugar vago ao lado delas, reservando-o para a gestante. Mas uma das senhoras era a própria rainha Maria Antonieta. Ao percebê-lo, o estudante levantou-se confuso, desculpou-se e justificou a intromissão. A rainha o acolheu com benignidade:
— Pois vá logo buscá-la, que o lugar fica reservado para ela.
Quando a gestante ia sentar-se, a rainha chamou um criado e ordenou:
— Vá ao meu quarto e traga uma almofada para esta senhora.
E explicou:
— Este banco de mármore é muito frio para a senhora neste estado, que exige muitos cuidados.
Em seguida se estabeleceu uma longa e amável conversa entre mãe e futura mãe.(41:84)
***
Como mãe carinhosa, a rainha Maria Antonieta comprava presentes para os filhos nas festas de fim de ano. Num ano de inverno rigoroso, quando a população sofria privações de toda ordem, ela encomendou de Paris os melhores brinquedos, bonecas e jogos que estavam à venda, e os colocou numa sala para os filhos. Reuniu-os para apreciá-los, e depois explicou:
— Meus filhinhos, eu queria dar-lhes bonitos presentes de Natal, e por isso os encomendei para que escolhessem. Mas quero propor uma coisa melhor. Há muitos pobres que estão sofrendo por causa do inverno, e se tornariam muito menos infelizes se pudéssemos dar-lhes algum dinheiro. Vocês não querem aliviar o sofrimento deles, deixando de receber este ano os seus presentes e dando-lhes o dinheiro equivalente?
Os brinquedos foram todos devolvidos, mas a rainha teve ainda o cuidado de indenizar o vendedor pelas despesas de transporte que tivera.(15:184)
Antes daquela minha viagem literária, eu estava muito longe de imaginar que Maria Antonieta fosse o que transparece nos fatos acima. Não sei como alguém conseguiria conciliar este último relato histórico – e há muitos outros – com a calúnia de que os gastos enormes dela eram responsáveis pelo déficit das finanças francesas, a ponto de os revolucionários a alcunharem de Madame Déficit.(17:147) Gastando dinheiro da sua dotação pessoal ou do rei, isso que pouco influía nas contas do governo.
Muitos outros fatos vieram confirmar essa nova impressão, e eu os irei incluindo à medida que este blog for tomando corpo. Agora vamos aos fatos fornecidos por meus colegas. Quando discutíamos sobre o modo de conseguir o que o professor exigiu, ficou combinado que os meus colegas usariam pseudônimos. Foram escolhidos um tanto arbitrariamente, geralmente ligados a nobres famosos. Alguns deles estão vinculados ao país de origem dos seus ancestrais.

From: Richelieu
Beaugeste, conheço um fato da França indicando a afabilidade com que os monarcas tratavam os súditos.
***
Durante uma caçada, o rei francês Henrique IV distanciou-se do grupo. Encontrando um camponês, e sem se identificar, pediu-lhe que o conduzisse a um determinado local de encontro dos caçadores. O camponês se dispôs a acompanhá-lo, e no caminho manifestou o grande desejo que tinha de conhecer o rei.
— O senhor nunca o viu?
— Nunca.
— Bem, então eu o mostrarei daqui a pouco, pois ele também estará no local aonde vamos.
— E como farei para saber quem é o rei?
— Muito fácil. Nesse local, todos os homens estarão de chapéu na mão, e só o rei o terá na cabeça.
Quando o rei se aproximou do grupo, todos se descobriram, e ele perguntou ao camponês:
— Agora o senhor já sabe quem é o rei?
— Bem, só nós dois estamos com o chapéu na cabeça. Portanto, ou sois vós ou sou eu.

From: Valdeiglesias
Beaugeste, minha família é originária da Espanha, e ouvi em casa muitos relatos sobre a vida dos reis e dos Grandes de Espanha. Vou colocá-los à sua disposição, à medida que conseguir desencravá-los da memória.
***
Filipe II da Espanha foi surpreendido na estrada por uma forte e prolongada chuva, que o obrigou a pedir hospedagem na casa do lavrador Pedro Carrasco. Satisfeito com o tratamento que lhe foi dado, mas que custara muitos incômodos ao lavrador, no dia seguinte ele disse:
— Pedro, pela boa acolhida que me fizeste, percebo que tens amor ao teu rei. E estou disposto a conceder-te a graça que me peças.
— Senhor, um homem como eu não tem outra ambição nem outra esperança além de que a colheita seja boa. Se isso está ao alcance de Vossa Majestade, então eu a quero.
— Os reis não podem tornar a colheita boa ou má, conforme queiram, pois isso não depende deles.
— Então não se preocupe Vossa Majestade, que vou pedir essa graça a Deus.
— Mas, nas coisas que dependem dos homens, não tens nada a pedir? Riquezas, honras, casamentos para as filhas?
— De honras, senhor, não necessito além das que me dá a minha consciência tranqüila. Riqueza, tenho a que me basta. Quanto às minhas filhas, eu as casarei eu mesmo, e creio que serão muito felizes.
— Bem, mas não pedirás nada para ti?
— Senhor, pedirei a Deus que não sejamos novamente obrigados a encontrar-nos nesta terra, como hoje, mas que nos encontremos no Céu.
***
Apresentou-se a Filipe II um soldado que servira longamente no exército, e pediu:
— Senhor, eu servi no exército de Vossa Majestade durante toda a vida, e agora vejo-me na contingência de ir para a reserva sem ter o suficiente para comer.
O rei concedeu-lhe uma pensão adequada, mas alguns meses depois o soldado se apresentou para novo pedido. O rei contestou:
— Então não foi suficiente a pensão que lhe concedi há poucos meses?
— Sim, Majestade. Concedestes uma pensão que me basta para comer. Mas eu me esqueci de pedir uma pensão para beber.
O sisudo Filipe II quase se permitiu rir do pedido, e concedeu um aumento de pensão ao soldado.(19:3:121)

From: Chateaubriand
Sempre me interessei pela literatura francesa, Beaugeste, por isso adotei como pseudônimo o nome de um grande escritor francês, que era também de família nobre. Nessas minhas andanças pela literatura, interessava-me muito conhecer o papel dos vários personagens históricos que apareciam nos livros, e com isso adquiri um bom conhecimento sobre eles. Creio que isso será útil ao seu trabalho, e começo hoje relatando um episódio distensivo.
***
Um dia Luís XVI saiu de Versalhes com o príncipe de la Paix, ambos usando trajes comuns. Logo encontraram um carreteiro chicoteando violentamente os cavalos, que não conseguiam fazer o movimento adequado para desencalhar a carroça. O rei perguntou:
— Por que maltratas assim esses pobres animais?
— Ora, se sois mais tarimbado que eu, podeis tomar este chicote e desencalhar a carroça.
O rei tomou o lugar do carreteiro e tentou fazer o serviço, mas o movimento que conseguiu dar à carroça acabou por virá-la. O carreteiro se pôs a praguejar e amaldiçoar o imprudente, que ponderou:
— Ora, meu amigo, o mal está feito. Agora só nos resta consertar o erro. Mas nós vamos ajudar.
E tanto ele como o príncipe se puseram a descarregar, empurrar, recarregar. Nesse momento chegaram algumas pessoas que reconheceram o rei, e o disseram em voz alta. O carreteiro, apavorado com a informação, saiu correndo para esconder-se. Logo o monarca mandou buscá-lo, e perguntou:
— Por que fugiste? Nós não te ajudamos bastante, e não somos bons trabalhadores? Toma isto, para consolar-te.
E colocou algumas moedas nas mãos do carreteiro. Em seguida voltaram os dois ao palácio, com a roupa e os sapatos sujos de barro, mas rindo-se a valer.(27:1:576)

From: Schwartzenberg
Beaugeste, tenho sangue alemão e admiro muito as boas coisas que a Alemanha produziu. Acho que meu acervo de fatos poderá ser-lhe útil.
***
Em visita a uma escola de aldeia alemã, Frederico II recebeu um buquê de flores entregue por uma menina, agradeceu e resolveu fazer-lhe um exame oral.
— A que reino pertencem estas flores?
— Ao reino vegetal.
Frederico deu-lhe uma moeda, e acrescentou outra pergunta:
— E esta moeda, a que reino pertence?
— Ao reino mineral.
— Parabéns! E eu, a que reino pertenço?
A resposta que deveria ser dada – ao reino animal – pareceu pouco respeitosa à criança, e ela achou uma saída:
— Ao reino de Deus.
Sorrindo, o soberano comentou:
— Aceito a tua resposta como uma manifestação do teu bom coração.
***
A escritora francesa Olimpia Andouard viajava em carruagem de aluguel na Alemanha. Quando desceu, entregou ao cocheiro uma moeda cujo valor ela julgava suficiente. O cocheiro devolveu-a, falando alemão e gesticulando furiosamente. Ela não falava a língua alemã e não sabia como resolver o assunto. Nesse momento saía de uma casa próxima um senhor distinto, que se aproximou e disse em francês:
— Vejo que a senhora não fala nossa língua.
— Muito sonora, como podeis ver.
— Seja como for, está claro que seria útil conhecê-la. Mas não se preocupe, que eu resolverei o assunto. Quanto tempo durou a viagem?
Obteve do cocheiro o valor que ele esperava receber, transmitiu-o à escritora e esta efetuou o pagamento, mas notou que o infeliz tremia dos pés à cabeça. O cavalheiro perguntou-lhe ainda:
— Quanto a senhora pretende dar de gratificação?
— Duas libras.
— Duas é demais. Basta uma, e não se deve desperdiçar dinheiro.
— O senhor está me parecendo um tanto avarento.
— Não avarento, mas econômico.
Os dois se despediram, depois dos agradecimentos e demonstrações de simpatia. À noite a francesa estava entre os convidados de um banquete na corte, e espantou-se ao identificar no anfitrião, rei Guilherme I, o cavalheiro que resolvera a sua pendência com o cocheiro. Ele se aproximou e disse:
— Agora a senhora entende por que devo ser econômico: o dinheiro que eu gasto é dos meus súditos.
— E estou entendendo também por que aquele vosso súdito tremia tanto.(32:6914)

From: Chesterfield
Quando era ainda príncipe de Gales, um dia Eduardo VII caminhava sozinho por uma estrada rural, e alcançou uma velhinha carregando com cuidado uma cesta. Puxou conversa, enquanto andava ao seu lado, e perguntou:
— O que a senhora carrega nesta cesta?
— Estou voltando do mercado e levo para casa os ovos que não consegui vender.
— Ovos?! Mas eu estou interessado em ovos frescos. Se a senhora me ceder os seus, darei em troca um retrato da minha mãe.
— Meu filho, que queres que eu faça com o retrato da tua mãe?
— Quem sabe!...
Chegaram à cabana da velhinha, e o príncipe lhe deu então uma moeda de ouro onde estava cunhado o perfil da rainha. Só então ela entendeu quem era o seu companheiro de estrada.

From: Kaunitz
Alemanha e Áustria, além de países vizinhos, têm origem étnica, cultural e histórica muito próximas. Mas é bom conduzir independentemente os dois países, portanto proponho-me a cuidar da Áustria alegre e dançante, deixando ao Schwartzenberg a parte maior do mundo germânico.
***
Tendo ao colo o filho que se tornaria o imperador José II, a imperatriz Maria Teresa passeava a pé pelas ruas de Viena e encontrou uma mulher pobre com o filho ao colo. A criança estava muito magra, e a imperatriz penalizada deu à mãe uma moeda.
— O que poderei fazer com uma moeda de ouro, senhora? Meu filho caminha para a morte porque lhe falta o leite, pois o meu seio secou.
A imperatriz tomou a criança nos braços e lhe ofereceu o próprio seio, só devolvendo-a depois de estar saciada.
***
Maria Teresa acompanhava pessoalmente a construção do palácio de Schönbrunn. Um dia encontrou um bando de meninos que brincavam de modo perigoso, escalando o muro com o risco de cair e fraturar até mesmo o pescoço. Mandou chamar o chefe dos garotos e ordenou que lhe aplicassem alguns açoites. Muitos anos depois, quando assistiu a um concerto em sua homenagem, foi-lhe apresentado o maestro e compositor Joseph Haydn.
— Mas eu já vos conheço. Onde será que vos vi?
— Majestade, a vossa lembrança está relacionada com uns açoites que mandastes aplicar-me.
— Ah, bem! Lembro-me daqueles açoites. Mas era só para impedir-vos de quebrar o pescoço. E podeis ver agora que agi bem.(32:9269)

From: Orloff
Quando viajava incógnito pela França sob o pseudônimo de Conde do Norte, o grão-duque Paulo, que se tornaria depois o czar Paulo I, foi atendido numa hospedaria por uma jovem bela e inteligente. A esposa do grão-duque perguntou à jovem:
— Qual é o teu nome, minha querida?
— Madame, eu me chamo Jeanne, mas as pessoas me conhecem por Javotte (faladeira), porque acham que eu falo muito.
— Ah, então você gosta de conversar! Não quer conversar um pouco conosco?
— Com prazer, se a senhora o deseja.
— Você não é tímida? – perguntou o grão-duque.
— Não tenho acanhamento em relação ao senhor. Sei que sois um grande príncipe, tão rico quanto um rei, mas tendes a aparência de bondoso, e eu não teria em relação ao senhor o medo que tenho dos tenentes do Royal-Lorraine.
— Muito bem, Javotte! Já que você tem de mim essa boa impressão, pergunto-lhe o que posso fazer por você.
— Ora, senhor... Eu não sei...
— Não sabe? Pense em alguma coisa.
Ela se pôs a sorrir com um sorriso encantador, e disse:
— Ah, eu o sei muito bem, mas...
— Você quer que a ajude?
— É bem isso, se puderdes.
— Acho que já estou entendendo. Então responda-me francamente: você está noiva e quer se casar?
A face da jovem enrubesceu, e ela confirmou:
— Isso é bem verdade, senhor.
— Como se chama o seu noivo?
— Bastien Raulé, para vos servir.
— Qual a profissão dele?
— Talhador de pedras, senhor. É um bom emprego, mas bastante cansativo, e o deixa todo empoeirado.
— E por que vocês não se casam?
— Chegastes à grande dificuldade, senhor, pois nos falta o dinheiro. Ele não é rico e eu tenho um salário de dez escudos por ano.
— Então é só por isso que não se casam?
— Apenas por isso, senhor. Até que ele gostaria muito, e eu também.
— Ele é um rapaz bonito?
— Ah, quanto a isso, senhor, eu posso assegurar. Quando ele está bem lavado e bem vestido, é mais belo que qualquer oficial do Royal-Lorraine.
— E quanto lhes falta para poderem casar?
— Muito dinheiro, senhor, mais do que poderíeis dispor neste momento.
— Quanto seria isso?
— Ainda precisamos de... cem escudos, senhor.
Querendo deixar à esposa o prazer da generosidade, o grão-duque lhe fez um sinal, e ela chamou:
— Venha cá, Javotte, e estenda o seu avental.
Tendo a jovem obedecido, ela abriu a bolsa e colocou cem escudos de ouro no avental. A alegria e o espanto foram tão grandes, que ela exclamou:
— Meu Deus! Será que estou sonhando?!
Sem se preocupar com as moedas, que caíram ao chão, ela se ajoelhou e tomou a fímbria do vestido da grã-duquesa, osculando-o com lágrimas nos olhos. No dia seguinte, com o noivo endomingado, ela o apresentou ao casal, manifestando a mais sincera e comovida gratidão.

From: Montmorency
Conheço alguns fatos sobre os dois séculos que antecederam a Revolução Francesa, e os relatarei à medida que conseguir reencontrá-los nos meus papéis.
***
Depois de tornar-se viúvo, Luís XIV casou-se secretamente, em 1686, com a dama da corte Mme. de Maintenon. Quando criança, embora fosse de família nobre, ela levara uma vida de muitas privações em conseqüência de uma reação armada de membros da nobreza contra o Trono, conhecida como Fronda. Num dia em que se encontrava na antecâmara dos seus aposentos em Versalhes, apresentou-se um homem idoso que a abordou com respeitosa ousadia:
— Eu vi a senhora quarenta anos atrás, e suponho que não seríeis capaz de reconhecer-me. Mas não podeis ter-me esquecido completamente. Certamente vos lembrais de que, quando retornastes das Ilhas, todas as quintas-feiras comparecíeis à porta dos jesuítas de La Rochelle. Eu era encarregado de distribuir a sopa aos pobres, e notei uma criança que viria a ser a senhora, diferente daquela multidão de mendigos. Notei a nobreza da vossa fisionomia, totalmente deslocada naquele meio. Percebi o vosso acanhamento ao receber aquela esmola, e tive compaixão.
— Então foi o senhor que, para poupar-me a vergonha de ser confundida com aqueles miseráveis, levava a sopa aonde eu estava, e ainda me pedia mil perdões por ter de limitar-se a um socorro tão medíocre. O senhor me salvou a vida, dando-me aquele alimento, mas também compadecendo-se de mim por ver-me obrigada a mendigar publicamente.
Em seguida ela lhe deu uma quantia de que dispunha no momento, prometendo renová-la em outras ocasiões.(58:1:338)

Caro amigo, você tinha idéia de que os nobres agiam dessa maneira? Eu não tinha a menor noção disso. Portanto, acho que você também gostará das coisas que ainda tenho a dizer, e talvez até queira colaborar comigo na obtenção de outras.
O bem é difusivo por si mesmo. Era através dessas relações cordiais que os grandes acabavam por conhecer misérias anônimas, porque a miséria torna isolado e desconhecido aquele sobre o qual ela se abate. Freqüentemente, pelas mãos delicadas da esposa e das filhas, era dado aos grandes aliviar tantas dores que de outra maneira teriam ficado sem remédio.(89:247)
Para completar este primeiro dia, vou transcrever dois textos que me foram fornecidos por outro colega.
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O carinho cheio de dignidade e respeito, que os súditos devotavam à família real, transparecia também no relacionamento entre a nobreza rural e os camponeses. A grandeza dos senhores da terra não humilhava, mas elevava aqueles que trabalhavam no campo. O fato de esses nobres provincianos residirem próximo a seus auxiliares dava ensejo a manifestações recíprocas de solicitude e abnegação. O nobre Talleyrand, que teve papel nefasto na Revolução Francesa, narra nas suas Memórias os anos da infância passados junto à sua avó, Mme. de Chalais:
Mme. de Chalais era uma pessoa muito distinta. Seu espírito, sua linguagem, a nobreza de suas maneiras, o som de sua voz, tinham um grande encanto. Mantinha aquilo que ainda se chamava o espírito de Mortemart (era esse o nome de sua família).
O tempo que passei em Chalais causou-me profunda impressão. O respeito devido à dignidade era a pauta que regrava, nessas províncias distantes da capital, as relações dos antigos grandes senhores, ainda residentes em seus castelos, com a nobreza de uma ordem inferior e com os habitantes de suas terras. A pessoa mais importante da província ter-se-ia por aviltada se não fosse polida e benfazeja. Seus distintos vizinhos considerariam faltar a si mesmos, se não tivessem pelos seus antigos nomes de família uma consideração e um respeito que, expressos com liberdades decentes, não eram senão uma homenagem do coração. Sempre que os camponeses viam seus senhores, era para receber deles socorros e palavras encorajadoras e consoladoras.
Alguns velhos senhores, terminada sua carreira de corte, sentiam prazer em retirar-se para as províncias que tinham contemplado a grandeza de sua família. Aí, de volta aos seus domínios, gozavam de uma autoridade de afeição, aumentada e aureolada pelas tradições da província e pela recordação daquilo que tinham sido seus antepassados. Dessa espécie de consideração jorrava uma certa importância sobre aqueles que mais proximamente se sentiam objeto de seus favores.
Chalais era um dos castelos daquele tempo saudoso e querido. Muitos gentis-homens de velha estirpe formavam aí, para minha avó, uma espécie de corte. Nessa pequena corte os hábitos de deferência se conjugavam com os sentimentos mais elevados. Os senhores de Benac, de Verteuil, de Gourville, d’Absac, de Chauveron, de Chamillart, tinham gosto em acompanhá-la todos os domingos à missa paroquial, desempenhando cada um funções que a alta polidez enobrecia. Bem junto do genuflexório de minha avó ficava a pequena cadeira que me destinavam.
Terminada a missa, todos nos dirigíamos para uma ampla sala do castelo, chamada butique. Muito limpamente, e bem dispostos em pequenas prateleiras, aí estavam os vidros contendo ungüentos diversos, cujas receitas a velha residência conservava desde tempos imemoriais. Todos os anos eram renovados, pela solicitude do boticário e o desvelo do pároco do lugar. Havia também garrafas de elixir, xaropes e caixas contendo outros medicamentos. Os armários guardavam provisão considerável de chumaços, grande número de rolos de ligaduras de dimensões diversas, preparadas com velha roupa branca muito fina.
Na sala que precedia a butique, esperavam reunidos todos os doentes que vinham procurar socorros. Nós passávamos por eles e os saudávamos. Mademoiselle Saunier, a mais antiga camareira de minha avó, fazia-os entrar um após outro. Minha avó os recebia numa poltrona de veludo, tendo diante de si uma mesa negra de velha laca. Por direito, eu me colocava junto à poltrona da princesa.
Duas irmãs de caridade indagavam de cada enfermo suas moléstias ou suas feridas, em seguida diziam quais os ungüentos que podiam curá-los ou aliviá-los. Então minha avó designava o lugar em que eles se encontravam, e um dos gentis-homens que a acompanhara à missa ia buscá-los. Outro trazia a gaveta com as ataduras. Eu pegava um maço, passava-o a minha avó, e ela mesma cortava as bandas e as compressas de que necessitava.
Os doentes levavam para casa ervas para chá, vinho, remédios e alguns outros confortos, dos quais o mais tocante eram as bondosas palavras da boa dama, que os socorria em suas necessidades e se apiedava de seus sofrimentos. Os melhores remédios receitados por médicos de grande fama, ainda que distribuídos também gratuitamente, não conseguiriam reunir tantos indigentes. Sobretudo, não lhes proporcionariam tão grande bem, pois faltar-lhes-iam os eficazes efeitos morais que facilitam a cura do povo: a obsequiosidade, o respeito, a fé e a gratidão.
As lembranças do que vi e ouvi nesses primeiros albores de minha vida são para mim de uma doçura extrema. Repetiam-me cada dia: ‘Desde sempre o vosso nome é objeto de veneração nesta terra’. Outro dizia-me afetuosamente: ‘Nossa família sempre esteve ligada a alguém de vossa casa. A terra que nós temos, foi de vosso avô que a recebemos. Foi ele quem construiu a nossa igreja. A cruz de minha mãe foi presente de Madame. As boas estirpes não degeneram’.
Foi em Chalais, junto de minha avó, que sorvi todos os bons sentimentos... elevação sem orgulho... respeito... ternura sem familiaridade... afeto... porque há uma herança de sentimentos que cresce de geração em geração.(107:8)
Não conhece a doçura de viver, quem não viveu na França antes de 1789.
No segundo texto, o conde Luís-Filipe de Ségur descreve o que encontrou quando voltou da Rússia, onde permanecera cinco anos como embaixador. Paris estava em plena efervescência revolucionária, em outubro de 1789. Comparando a situação de então com a que deixara ao partir, escreveu:
Ao rever a sociedade que fizera o encanto da minha juventude, encontrei-a com mais vivacidade, mais animada que outrora. Era difícil deparar com a indolência e o tédio. No entanto, não se via mais aquela doçura de viver, aquela elegância e urbanidade que constituíam a verdadeira escola do bom gosto e da graça. Um grande interesse animava constantemente os salões, mas era sempre a mesma coisa que se discutia. Eu procurava em vão, nas conversas, aquela variedade, aquela jovialidade, aquela tolerância mútua, aquela amável leveza que as tornava antes tão atraentes.
Assim, meus caros amigos, podemos apresentar como conclusão deste primeiro dia que os reis e nobres, de modo geral, não eram os monstros que imagina a nossa cabeça impregnada de igualitarismo. Que nobres tenham cometido erros, é assunto indiscutível. E quem não os comete, nobres ou não? Portanto, minha intenção não é inocentar ninguém, pois sei que alguns dos personagens dos fatos citados – e certamente ocorrerá o mesmo em muitos dos que ainda virão – tiveram ação decididamente censurável. Para quem se limita às falácias da História tendenciosa e mal contada, a existência desses maus exemplos é tomada como pretexto para condenar todos os nobres ou para invalidar o que de bom eles fizeram.
A vida no Antigo Regime era muito agradável, num pleno entendimento e harmonia entre as classes de modo geral, contrariando a idéia que se tem hoje, difundida pelos artífices e adoradores da Revolução Francesa. Em meio à abundância de bens materiais, o nosso mundo atual é muito pobre de um bem fundamental que fazia a riqueza e felicidade daquele mundo antigo. Perambula-se hoje de prazer em prazer, mas permanece no fundo da alma a 'Nostalgia de um mundo com a doçura de viver',

(Da página http://nobrezanahistoria.blogspot.com, publicada em 26/5/2008).